Por Bruno Leonel

Está aberta ao público, na Vila Cultural Grafatório, a exposição “Líquido que nem pedra” com trabalhos e experimentos artísticos que dialogam com o tema da contemporaneidade. A mostra, última exposição do ano realizada no espaço, marca o encerramento das atividades de 2016. A abertura ocorreu com a presença de diversos artistas convidados e também discotecagem do projeto Emporio da Keiko. A Vila Cultural conta com o patrocínio do Programa Municipal de Incentivo à Cultura (Promic).

Exposição reuniu trabalhos de artistas de Londrina, Rio de Janeiro e do coletivo Traços (Mostrados na foto) do Rio Grande do Sul - Foto: Bruno Leonel/Rubrosom
Exposição reuniu trabalhos de artistas de Londrina, Rio de Janeiro e do coletivo Traços (Mostrados na foto) do Rio Grande do Sul – Foto: Bruno Leonel/Rubrosom

A exposição faz parte do projeto Expografias, que selecionou artistas de todo o Brasil para exporem seus trabalhos na Vila Cultural Grafatório. Nesta terceira edição, conta com obras de Anderson Monteiro, Pilar Rocha e do Coletivo Traço. Nela, os artistas demonstram, por meio da arte, os desafios da contemporaneidade. Para isso, eles exploram, plasticamente, o imaginário simbólico da rocha.

O artista Anderson Monteiro, de Londrina, apresenta o “Passado para o futuro”, com naturezas-mortas feitas com grafite, óleo de linhaça, pó de chaminé e tinta a óleo. Esses materiais corroem o papel criando uma terceira margem, ou seja, um lugar de tensão, entre desenho e pintura, materialidade e vazio, perenidade e finitude.

O artista londrinense Anderson Monteiro levou à mostra trabalhos feitos a partir da observação de uma rocha ao longo da passagem do tempo - Foto: Bruno Leonel/Rubrosom
O artista londrinense Anderson Monteiro levou à mostra trabalhos feitos a partir da observação de uma rocha ao longo da passagem do tempo – Foto: Bruno Leonel/Rubrosom

Já o Coletivo Traço, de Porto Alegre, expõe o “Traço – pulso primordial”, em que a instalação reúne desenhos em grafite, crayon e óxido de ferro, em diálogo com fotografias de pinturas rupestres e textos. A obra parte do conceito de desmontagem, caro ao surrealismo, e é inspirada na noção de “imagem em movimento”, de Aby Warburg. “A ideia surgiu a partir do conceito de ‘botar em diálogo’ os traços primordiais dos Kaigang – Com referências de mais de 3 mil anos – com a arte contemporânea. Assim a gente mobiliza com materiais dos territórios desses povos, cinzas, terras, madeira…”, conta a artista Ana Elisa de Freitas, do coletivo Traço. Segundo o grupo, há uma preocupação também em não distorcer ou tirar o sentido das referências originais. “Hoje algumas imagens ligadas a essa linguagem são um pouco deturpadas, há cerca de 305 povos indígenas no Brasil, mas, pouco disso é divulgado… A gente tenta trazer isso nos desenhos e materiais que temos trabalhado na exposição”, conta Nãn Kaigang, integrante do coletivo.

Obras do coletivo 'Traços' exploram referências de peças feitas por índios Kaingang, assim como, o uso de materiais como terra e madeira - Foto: Bruno Leonel/Rubrosom
Obras do coletivo ‘Traços’ exploram referências de peças feitas por índios Kaingang, assim como, o uso de materiais como terra e madeira – Foto: Bruno Leonel/Rubrosom

A artista Pilar Rocha, do Rio de Janeiro, reúne obras de diversas séries. São desenhos feitos apenas com furos de diferentes agulhas que formam galáxias e texturas minerais sobre papéis. É o procedimento que a artista chama de “medotologia da ostra”, na qual a repetição de camadas, com o passar do tempo, forma uma imagem pelo acúmulo de furos, lembrando a textura de uma pedra pomes, ela trouxe ao Grafatório também peças de uma serie que ela chama de ‘Cartografia Lunar’. “É como se fosse um desdobramento da serie ‘pedra papel’ (Que também está na galeria) é uma ideia de transformar a matéria através de um gesto repetitivo… Essa coisa da ‘ostra’ é pelo processo do próprio animal, como forma de defesa a ostra tende a envolver corpos estranhos com diversas camadas de madrepérola, ao longo dos anos, como uma forma de se proteger… Eu tenho um pouco isso, transformar matéria através da repetição. O elemento tempo é muito caro a todos aqui, o trabalho dialoga com os outros também”, conta a artista Pilar. Segundo ela, os trabalhos são feitos entre 2015 e 2016.

Última mostra do ano segue aberta no grafatório
Peças da artista Pilar Rocha intitulada ‘Cartografia Lunar’ – Foto: Bruno Leonel/Rubrosom

A mostra, última de 2016, conclui de forma bastante rica e variada uma extensa programação artística que o espaço promoveu ao longo do ano. “É a terceira exposição do projeto expografias, iniciado neste ano, e ai rolou esta última exposição… Estamos bem felizes, o projeto é feito bem na ‘parceria’ com os artistas, não temos como remunerar o pessoal, então o pessoal meio que vem como colaboração para o espaço… Tem exposições que são experimentais, mas nem tanto, nessa exposição, o que aconteceu é que tivemos três propostas que dialogam com o mesmo tema (A coisa da rocha, e pedra) e foi natural querermos aproximar isso. A tentativa de linguagem próximo do diferente, estranho é sempre legal, uma das coisas que buscamos destacar no grafatório logo que começamos”, conta Felipe Melhado, um dos articuladores da Vila Cultural.
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