Por Bruno Leonel

Completando onze anos de carreira, e com um notável gosto pela mistura variada de referências (Que vão desde rock, música brasileira, latina, Ska, Carimbó e até ritmos regionais) a ‘Trupe Chá de Boldo’ segue sua trajetória como um dos nomes da atualidade que mais busca experimentação e ousadia no seu método compor e criar. Com um time de 13 integrantes (!!), e já três discos de estúdio na bagagem, a banda segue inquieta em um caminho próprio, quase como se essa experimentação toda, algumas vezes até pareça ignorar maiores possibilidades comerciais que seus discos possam ter. Em tempos difíceis para a música independente do Brasil, o grupo assim mantém uma postura mais voltada à liberdade artística. Para a ‘Trupe’ a mistura não é meta, mas ponto de partida para a invenção de sonoridades… Essa experimentação toda já encontrou algumas parcerias de peso como o músico Tom Zé (O grupo participou dos discos “Tribunal do Feicebuqui” (2013) e “Vira Lata na Via Láctea” (2014), do compositor baiano).

A 'Trupe' completa, em imagem de promocional de 'Presente' (2015) - Foto: Divulgação
A ‘Trupe’ completa, em imagem promocional de ‘Presente’ (2015) – Foto: Divulgação

O show que trouxe a banda à Londrina, no último dia 10 foi mais baseado no último disco do grupo, o disco ‘Presente’ de 2015. Assim como o trabalho anterior “Nave Manha” (2012), a produção do trabalho é assinada por Gustavo Ruiz (produtor e guitarrista de Tulipa Ruiz), com mixagem feita por Victor Rice e masterização de Fernando Sanches (estúdio El Rocha). O disco traz 11 faixas inéditas – entre elas parcerias com Marcelo Segreto (Filarmônica de Pasárgada), Tatá Aeroplano e Iara Rennó – e uma releitura de “Jovem-Tirano-Príncipe-Besta”, de Negro Leo. Aproveitando a passagem da banda pela cidade, aproveitamos para falar com a banda sobre um pouco do trabalho que eles tem feito nesse tempo todo de carreira.

Sobre o processo de criação, as influências e o som da trupe, o RubroSom conversou por e-mail com Julia Valiengo, uma das vocalistas da trupe. Confira:

Como foi o processo de composição/gravação do disco mais recente “Presente”? Rolou muito diferente do que havia sido feito no disco anterior?
O álbum “Nave Manha” teve as composições mais concentradas nas mãos do nosso vocalista Gustavo Galo. Já o álbum “Presente” contou também com composições de outros integrantes, parcerias entre pessoas da banda e também com músicos próximos da gente como Tatá Aeroplano e Iara Rennó. Mas tão importante quanto as composições, a criação de arranjos é sempre algo que fazemos de forma bastante coletiva e nesse disco a gente quis dar mais atenção pra esse som com cara de banda. Gustavo Ruiz, nosso amigão querido que produziu o disco (o Presente e o Nave Manha) ajudou muito pra dar essa cara.

Vocês entraram no estúdio com as músicas todas prontas ou foram criando coisas no estúdio?
Quando entramos em estúdio a maior parte dos arranjos já estava criada, mas como nos outros discos, rolaram também algumas idéias novas no calor da gravação, o que é sempre muito gostoso. O processo do disco como um todo durou cerca de um ano, desde as primeiras imersões no repertório, viagens para criação de arranjos, ensaios, gravação, concepção de capa e nome do disco e enfim o lançamento!

A banda tem um número grande de integrantes, qual é a principal dificuldade em conciliar ideias de uma banda com tantas pessoas? Alguma parte disso se torna mais ‘fácil’ também?
Claro! Tem a dor e a delicia de ser banda grande. A gente gostaria de viajar mais e a circulação às vezes fica comprometida pelo custo de viajar e hospedar tanta gente, mas além da gente conseguir dividir a parte burocrática mais chata que tem que ser feita, a parte boa mesmo é que quando você briga com alguém e fica de bode, é só dar um tempo com alguns dos outros 13. As decisões as vezes são mais lentas e raramente unânimes, mas é muito gostoso viver e produzir coletivamente.

Vocês são sempre lembrados por terem influencias consideradas um tanto exóticas (Vi uma vez que o Marcos Mumu falava sobre admiração pela música dos Balcãs), o que vocês tem ouvido de diferente por esses tempos?
Como a banda tem muitos integrantes, as influências que chegam são bastante variadas e se diluem muito no nosso som. O Remi, nosso saxofonista disse que tá ouvindo a rádio Yande, a primeira rádio indígena online do Brasil. Tem os amigos mineiros do Porcas Borboletas, Juliana Perdigão e os KURVA, Graveola e o Lixo Polifônico, os três terminado discos novos em breve. O Negro Leo que é um maluco maravilhoso. Mas na banda tem desde uns que ouvem muito samba e choro até outros que curtem mesmo a Beyoncé.

Vocês tiveram uma experiência de gravar com o Tom Zé… Como foi trabalhar com ele? Teve um pouco essa ‘piração’ de trabalhar com um ‘ídolo’?
Esses encontros com artistas de outra geração são sempre muito frutíferos. Tom Zé nos mostrou diversas músicas antigas dele que nunca tinham sido gravadas. ele é demais! muito figura, ensinou a gente um ponto de ‘reflexologia’ pra perder o nervosismo pré palco. Acabamos gravando algumas musicas pro EP Tribunal do Feicebuqui e fizemos o arranjo para a música Salva Humanidade, que entrou no seu último álbum Vira Lata na Via Láctea.

Como a ‘Trupe’ encara essa coisa de compartilhar as músicas gratuitamente na internet? Vocês defendem esse ‘livre compartilhamento’ das músicas também?
Defendemos sim, tudo que a gente produz está disponível gratuitamente no nosso site www.trupechadeboldo.com . Lá também você tem a possibilidade de comprar nossos discos físicos, que a gente também curte como um tipo de expressão. Costumamos ter um cuidado bem especial com eles.

E sobre os shows dessa turnê? Pessoal pode esperar um repertório de sons mais novos ou haverão músicas de todos os trabalhos mesmo?
Temos circulado mais com as músicas do trabalho do “Presente”, mas claro que o repertório também segue a vibe das arenas, de repente, vai que rolam surpresas nesses dias né?!


Serviço

Trupe Chá de Boldo em Londrina
Domingo 10 de abril às 18:00
Discotecagens: DJ ED GROOVE e DJ dbeat
Couvert: R$15