Movimento de artistas ocupa prédio no centro de Londrina

Um grupo de ativistas e articuladores liderados pelo Movimento de Artistas de Rua de Londrina (M.A.R.L), ocupou o antigo prédio da ULES (União Londrinense dos Estudantes Secundaristas) no centro de Londrina, no início da tarde desta segunda-feira (27). Entre as principais pautas, o projeto é transformar o local em um espaço cultural permanente, com atividades e apresentações dedicadas à toda a comunidade como ocorre em outras Vilas Culturais. O prédio encontra-se inativo há quase 10 anos.

Faixas e bandeiras de vários coletivos integrantes da ocupação foram colocados na frente do prédio situado na Avenida Duque de Caxias - Foto: Bruno Leonel/RubroSom
Faixas e bandeiras de vários coletivos integrantes da ocupação foram colocados na frente do prédio situado na Avenida Duque de Caxias – Foto: Bruno Leonel/RubroSom

A ocupação ocorreu após a realização de um cortejo, iniciado às 9h30 próximo à Concha Acústica de Londrina. “Esse planejamento da ocupação acontece já há alguns anos. Desde 2012, quando iniciamos o M.A.R.L, essa era uma das demandas; A ocupação desses espaços públicos, em desuso, para que pudéssemos revitalizá-los e realizar atividades. Em 2014 teve o encontro da Rede Brasileira de Teatro de Rua (Em Londrina) onde compareceram vários artistas, de todo o Brasil, que divulgaram experiências anteriores de ocupação. Houve um contato com a Secretaria de Cultura, onde fizemos uma carta informando sobre a necessidade desse movimento… Desde então estamos nos organizando para que isso acontecesse”, contou à reportagem do RubroSom o ator Rogério Francisco Costa, integrante do Núcleo Às de Paus, e um dos articuladores do movimento.

Segundo Danilo Lagoeiro (Foto) várias atividades e programação serão definidas ao longo dos próximos dias - Foto: Bruno Leonel/RubroSom
Segundo Danilo Lagoeiro (Foto) várias atividades e programação serão definidas ao longo dos próximos dias – Foto: Bruno Leonel/RubroSom

Ruínas – Nossa reportagem esteve no local e pode conferir a situação precária nas quais o prédio se encontra; Paredes bastante deterioradas, restos de entulho pelo chão e estruturas de madeira comprometidas compõem a paisagem do local. Pelos muros, pinturas com o nome de eventos e de patrocinadores que nem existem mais na cidade. Entre o decadente e o abandono, o local remete a um espaço com fragmentos de coisas ocorridas dez anos antes (E que permaneceram parcialmente conservadas).

Estruturas comprometidas e prejudicadas compõem o interior do prédio - Foto: Bruno Leonel/RubroSom
Estruturas comprometidas e prejudicadas compõem o interior do prédio – Foto: Bruno Leonel/RubroSom

Revitalização – Após a ocupação, alguns dos artistas e pessoas presentes se organizavam para pintar a fachada e os muros do local, além de realizar pequenas melhorias no espaço. Em Londrina, a ocupação do espaço foi tomada pelo Movimento dos Artistas de Rua de Londrina, que é ligado à Rede Brasileira de Teatro de Rua. “O dia 27 de junho é um dia que a Rede está encarando como um dia de luta. É uma movimentação ocorrida em vários locais do Brasil. A Lua Barbosa, uma palhaça, ‘teatreira’ foi assassinada neste dia, em 2014 na cidade de Presidente Prudente… Todo o ano, estamos relembrando isso. Uma das ideias da Rede é realizar ocupações permanentes para trazer essa perspectiva em espaços como guetos, favelas, comunidades… tornar esses espaços como locais permanentes de arte: Cultura, circo, artes visuais, um centro cultural público de fato!”, disse à reportagem o Relações Públicas e ator Danilo Lagoeiro, articulador do M.A.R.L. Danilo cita a troca de experiências, em encontros da Rede, como uma influência para a ocupação ocorrida nesta segunda. Durante um encontro recente, realizado em Campo Grande, a proximidade com a causa dos índios Guarani Kaiowa, assim como a resistência dos mesmos, foi uma referência considerada pelo coletivo. “Estamos agora organizando o espaço com funções, o espaço está comprometido, existe a perspectiva de realizar uma reforma e tornar possível a realização de atividades por aqui… Por enquanto as programações estão ocorrendo no salão externo, por questões de segurança. Iremos entrar em contato com o município, Câmara de Vereadores para entrar em um âmbito de negociação, a gente não sai daqui, sem que isso seja regularizado… E caso exista um projeto político já previsto (Para utilização do local) a gente quer ir para algum espaço, porque desde 2012 pedimos para o município uma lista de espaços públicos para serem usados pelos artistas de rua. Nossa ideia é dar um novo ar a esse local”, pontua Lagoeiro. A previsão é de que a antiga sede da ULES seja totalmente revitalizada com aproximadamente R$ 30 mil. O grupo avalia formas de arrecadar o recurso, inclusive, com financiamento coletivo.

Durante a tarde, artistas e pessoas ligadas à ocupação se preparavam para pintar a fachada do local - Foto: Bruno Leonel/RubroSom
Durante a tarde, artistas e pessoas ligadas à ocupação se preparavam para pintar a fachada do local – Foto: Bruno Leonel/RubroSom

De acordo com Lagoeiro, representantes da Secretaria de Gestão Pública estiveram no local, nessa segunda-feira, e informaram sobre a existência de um projeto prévio, da Guarda Municipal de Londrina, para transformar o local em uma central de monitoramento. A informação foi confirmada ao RubroSom pelo Secretário de Gestão Pública de Londrina, Rogério Carlos Dias. “Em 2014 a Guarda Municipal solicitou o local para construção de um novo espaço sim, seria construído ali uma central de monitoramento. A obra seria feita logo que houvessem recursos disponíveis, assim como o projeto pronto para realização… Isso não foi publicado, desde então, porque não houve necessidade. Trata-se de um ato interno da administração pública. Quando o local foi disponibilizado, a Guarda Municipal foi a única ‘Secretaria’ que manifestou interesse pelo local”, enfatizou o Secretário.

Segundo membros do próprio movimento, seriam precisos cerca de R$30 mil para reparos no local (Após uma avaliação feita junto à engenheiros) - Foto: Bruno Leonel/RubroSom
Segundo membros do próprio movimento, seriam precisos cerca de R$30 mil para reparos no local (Após uma avaliação feita junto à engenheiros) – Foto: Bruno Leonel/RubroSom

Hoje mesmo, o grupo já deu início a uma serie de atividades no local, em dias diferentes. Nesta segunda-feira um Sarau ocorrerá no local. “Foi uma ideia que sempre discutimos com o M.A.R.L, de envolver mais os grupos, a pesquisa, o trabalho de cada um. Como estamos juntos, aqui na ocupação, decidimos aproveitar a ocasião para fazer isso. Toda a semana cada um dos grupos pode falar sobre o seu trabalho, sua pesquisa… Pretendemos divulgar isso pela internet, há uma comissão quem ficará mais a frente nisso. A ideia de divulgar a programação, assim como, abrir o espaço para que outras pessoas possam propor realizações aqui na antiga ULES” cita o ator Herbert Proença, do Grupo Teatro de Garagem, que também fez parte do grupo que ocupou o prédio. “Atualmente há o programa de Vilas Culturais na cidade, que, muitas vezes acaba locando espaços privados para a realização de eventos públicos… Quem lucra com isso? A especulação imobiliária, grande parte dos recursos acabam indo para aluguel, a gente não concorda com isso, a ocupação quer gerar esse debate. Porque não serem espaços públicos concedidos para as Vilas?”, questiona Danilo. Segundo nota divulgada no facebook, apoiaram a ocupação os seguintes grupos: Cia. Boi Voador; Cia. Curumim Açu; Cia. Palhaços de Rua; Cia. Teatro de Garagem; Clã Pé Vermelho- Permacultura e Bio-construção; Coletivo Cão sem Plumas; Comitê do Passe Livre de Londrina; Comunidade Kaingang; Frente Anti-Fascista; MACUL – Movimento Artesanato é Cultura; Maracatu Semente de Angola; Movimento Cultura Londrina contra o Retrocesso; Movimento Punk; Núcleo Ás de Paus; Teatro Kaos.

Sobre o caso, o RubroSom entrou em contato com o Secretário de Defesa Social, Coronel Rubens Guimarães de Souza. A pasta atualmente é a responsável pelo local. “Não há ainda uma previsão para construção da central de monitoramento no local. Estamos finalizando ainda um projeto ao Prefeito… Temos também uma urgência nisso devido a uma reforma que acontecerá em breve na Caapsmel (Onde fica atualmente o monitoramento). Após essa ocupação, registramos já um boletim de ocorrência, sobre a ocupação de prédio público, e o mesmo posteriormente será encaminhado para a procuradoria jurídica do município. A ideia é entrar com um pedido de reintegração de posse do prédio”, explicou Guimarães.

Secretaria de Cultura retorna ao antigo prédio nesta terça

A Secretaria de Cultura de Londrina volta a partir dessa terça-feira (12) a fazer atendimentos no prédio situado na Praça 1º de Maio – Em frente à Concha Acústica. Até a semana passada, os atendimentos eram feitos de forma provisória em uma sala na Rua Pio XII, também na região central.

O prédio é considerado espaço de grande importância histórica e valor arquitetônico para Londrina e passou recentemente por um extenso processo de restauração. O contrato com a empresa responsável pela obra, a NS Engenharia e Construções LTDA-EPP, foi assinado pelo prefeito Alexandre Kireeff em 2014.

O local voltará a ser a sede administrativa da Secretaria Municipal de Cultura, reunindo o gabinete e as diretorias de Incentivo à Cultura, Ações Culturais e Patrimônio Artístico e Histórico-cultural. Segundo a secretária municipal de Cultura, Solange Batigliana, o prédio será um espaço multiuso que, além de abrigar os serviços administrativos da Secretaria de Cultura, também será a nova sede da Biblioteca Infantil Municipal. “Essa ação é significativa para a preservação do patrimônio histórico de Londrina. É a primeira experiência de restauro de um imóvel público municipal feito integralmente com recursos próprios. Será um espaço para todos, para a cidade”, destacou.

Segundo divulgado pela Prefeitura, o local vai funcionar das 12 às 18 horas. O servidores da Biblioteca Infantil farão a mudança nos dias 12 a 15 deste mês e o atendimento à comunidade voltará ao normal a partir do dia 2 de maio, funcionando das 12h às 18h.

Resgate e novidades – No decorrer de sua história, o prédio sofreu uma série de interferências que modificaram bastante sua estrutura original. A recuperação do espaço buscou resgatar diversos aspectos do projeto oficial, desenvolvido na década de 1950 por João Batista Vilanova Artigas e Carlos Castaldi.

Durante a obra, houve a recuperação de espaços importantes que perderam o uso ao longo dos anos. Um deles é o solário, área externa onde antigamente as crianças da Casa da Criança, primeira creche de Londrina, brincavam e tomavam sol. A cobertura que havia lá foi retirada e, após a reinauguração, o espaço será totalmente aberto ao público, podendo receber eventos como lançamento de livros e palestras. O mesmo local também terá uma sala para eventos e ações culturais.

No segundo piso do prédio haverá um auditório com capacidade para 50 pessoas, que estava previsto no projeto original, mas nunca foi de fato viabilizado. Além disso, dois jardins amplos também poderão ser visitados e receber atividades. Já a tradicional Sala de Exposições José Antônio Teodoro, que funcionava na entrada do prédio antigo, será transferida e reativada na Biblioteca Pública Municipal, na avenida Rio de Janeiro, 413, centro.

Valor histórico – O prédio representa um marco social na história de Londrina e foi construído durante o governo do prefeito Hugo Cabral para abrigar a Casa da Criança. O local também já foi utilizado como Biblioteca Municipal de Londrina na década de 1970.

Com informações do N.Com – Prefeitura de Londrina