Documentário: ‘Ouro Verde – Memórias da cidade do Café’

Uma montagem dinâmica, apoiada em uma narrativa envolvente e, em vários momentos, bastante emotiva são alguns dos recursos usados pelo diretor Fábio Cavazotti no filme “Ouro Verde – Memórias da Cidade do Café” – Documentário lançado no finalzinho de 2015, e que buscou recuperar, através de depoimentos e registros de época, um pouco da história do grande ciclo da cafeicultura na região, assim como sua interferência na fundação e desenvolvimento de Londrina. O filme contou com produção executiva de Bruno Gehring (Filmes do Leste) além de roteiro assinado por Rodrigo Grota.

Membros da Companhia de Terras Norte do Paraná durante as primeiras excursões pela região (Anos 30) – Reprodução

Concluído após a produção de mais de 30 horas de gravação, o filme retrata desde o início das atividades da ‘Companhia de Terras Norte do Paraná’ na região, passando pela baixa dos preços em meados de 40 (Durante a 2ª Guerra Mundial) pelo crescimento da cidade com a urbanização nos anos 50 e, em seguida, o grande auge a partir de 1960. Com uma delimitação bastante clara entre todas as suas fases, a narrativa chega até o início dos problemas originados pelas questões climáticas (Anos 70) e com a grande geada de 1975 que, para centenas de famílias, representou o fim de uma era, e também de muitas esperanças. O apelo das imagens chama a atenção; vários planos de lavouras e de colheitas de café preenchem um espaço importante do registro e dão um tom ora épico, ora até bucólico ao documentário.

Benedito e Inês Signori relembram histórias da ‘Época de ouro’ do Café – Foto: Reprodução

A quantidade de imagens de acervo das décadas de 1930 e 40 – Cortesia dos registros do Museu Histórico de Londrina – também impressiona e reforça o caráter histórico da produção. O filme todo, especialmente nos depoimentos de pessoas mais velhas, corretores e agrônomos é permeado por uma certa nostalgia que, não raramente, foca mais em pontos positivos do período. “Hoje não pode trabalhar até ter uma certa idade né? Mas na época já com 5 ou 6 anos a gente trabalhava, o pessoal limpava pés de café…. Este era nosso mundo, a gente gostava de fazer isso. Trabalhávamos felizes”, contam Orides e Maria Inês Festti durante um trecho em que explicam sobre o dia a dia na lavoura.

Imagem 4 - Lavouras
Segundo o diretor, várias horas de material bruto, com registro das excursões da época, foram encontrados durante a pesquisa – Foto: Reprodução.

Sobram histórias na fala de pessoas mais velhas que contam com bastante entusiasmo sobre como era uma ‘Época de ouro’ e sobre como pessoas de todas as idades e famílias eram envolvidas com o trabalho, apesar das dificuldades. Em um dos trechos mais bonitos do filme, o casal Benedito e Inês Signori, cantam ‘à capela’ da canção ‘Paraná do Norte’(Do compositor Palmeira) cuja letra cita várias cidades da região – Arapongas, Cambé, Apucarana – Assim como o roteiro que muitos trabalhadores do período faziam durante o transporte e venda do produto.

Em entrevista ao Rubrosom, o diretor contou mais sobre a produção do material:

RS: Como surgiu a ideia de fazer esse filme?
Fábio Cavazotti: Eu sou londrinense…. Nasci um ano antes da grande geada de 1975 – Minha avó tinha uma fazenda de café, perto da cidade, e desde criança o café fez parte da minha vida. Recentemente fiz o passeio da rota do café, aquilo me fez retomar algumas lembranças e acabou despertando em mim a ideia de contar essa história através do café, sabendo também sobre a importância do produto para nossa história.

Quanto tempo de produção para concluir o projeto?
O documentário foi produzido de março até dezembro de 2015 – Neste tempo fizemos trabalho de campo, pesquisa, entrevista, edição, finalização, trilha sonora e conclusão. Há uns meses antes que é o tempo de maturação, mas a parte prática foi neste período. Ao todo foram mais de 30 entrevistados…. Mais ou menos 22 ou 23 fizeram parte do documentário. Mesmo os que acabaram ficando de fora, acrescentaram muito à pesquisa toda.

Algo que te surpreendeu na pesquisa?
O que realmente me chamou a atenção foram as imagens em vídeo dos primeiros momentos da região…. Lá no começo da década de 30. Achamos imagens da Companhia (de Terras) andando pelas matas, coisas que eu só havia visto em fotos. Encontramos um vídeo institucional dos 50 anos da companhia de terras, com quase 2 horas de imagens brutas daquela época.

E o material extra que não entrou no documentário…. Pensam em fazer algo com ele?
É muita sorte ter tanto material porque assim podemos contar de fato a história. O que ficou de fora pode render outras histórias. Não sei ainda o que seria, mas, certamente a partir da recepção maravilhosa que o trabalho vem tendo, a ideia é, cada vez mais, continuar contando a história da cidade. É uma coisa que me move, um assunto que me toca profundamente e foi um prazer muito grande fazer esse documentário. Fico já pensando no próximo… Foram produzidas cerca de 40h de filmagem, só com as gravações feitas pela equipe do documentário. O museu pediu uma cópia bruta dos registros. Iremos tentar formatar isso e fechar um material para os próximos meses. Em breve, outras exibições do documentário devem ser feitas.