Por Bruno Leonel

Londrinenses que há 20 anos frequentam bares e shows de rock pela cidade, eventualmente, se lembram com certa nostalgia de histórias ligadas a shows de nomes como Cherry Bomb e Primos da Cida, alguns até ocorridos em espaços que nem existem mais. Amigos que há 10 anos frequentavam espaços como o ‘El gato Negro’ e shows organizados pela Madame X, até hoje contam com emoção histórias e lembranças da época. Mais recentemente, quem pode ver aos últimos shows do Cólera – ainda com o falecido vocalista Redson – em 2011 na cidade, guarda no coração este pequeno momento como algo histórico, a ser lembrado para os anos futuros. Seguindo esta máxima, é provável que daqui há alguns anos, pequenas lembranças de alguns shows memoráveis, e inspirados da edição 2016 do DemoSul sejam lembrados por quem esteve por lá.

Shows históricos e boas surpresas londrinenses
Patife Band fez uma das apresentações mais memoráveis desta edição do festival – Foto: Bruno Leonel/Rubrosom

Em sua 16ª edição, e, reunindo estilos musicais variados, o evento, que tem apoio do Programa Municipal de Incentivo à Cultura (PROMIC) e também da Funarte, segue em alta se consolidando como foco de resistência para a música independente – Não somente limitada ao rock – em meio a uma região frequentemente dominada pela música de aproach mais comercial e já, massivamente, oferecida ao público via mídia-convencional. Em uma de suas melhores edições, superior à outra que acompanhamos, em 2010 quando Pato Fu e Tom Zé vieram para a cidade. Outro ponto de destaque foi a rodada de negócios promovida no último sábado (12) que reuniu em um mesmo, um time de peso com produtores e curadores de festivais importantes do Brasil (E também Argentina), entre eles: Abril Pro Rock, Sim SP, e Rec-Beat. bandas puderam conversar com alguns dos produtores, conhecer mais a experiência em outros festivais, e até, mostrar seu trabalho como forma de fazer contatos e, eventualmente, sondar participações em outros eventos. Muitas bandas da região compareceram, levaram cds e até outros materiais como forma de divulgar seus trabalhos.

Músicos, jornalistas e produtores trocam informações durante a rodada de negócios do Demosul 2016 - Foto: Bruno Leonel
Músicos, jornalistas e produtores trocam informações durante a rodada de negócios do Demosul 2016 – Foto: Bruno Leonel

Sexta-feira (4) – O festival, que abriu os trabalhos no último dia 4, em uma sexta-feira na Concha Acústica, contou em sua abertura com shows De um Filho, De um Cego, na Concha Acústica, passando pelo Blues responsa da Luke de Held & The Lucky Band o swing da Central Sistema de Som e uma apresentação inspirada da Patife Band, acompanhada com entusiasmo pela platéia, o início do festival deste ano não poderia ter sido melhor. (Leia mais AQUI sobre a primeira safra de shows do evento), Patife Band aliás, que não tocava em Londrina há 4 anos, desde o Demo Sul 2012, fez uma apresentação digna de ser chamada de histórica – Fãs notaram falta de algumas faixas importantes do disco ‘Corredor Polonês’, mas nada que chegou a comprometer a sintonia banda/plateia.

Di Melo durante histórica apresentação no Iate Clube no último sábado (5) - Foto: Bruno Leonel
Di Melo durante histórica apresentação no Iate Clube no último sábado (5) – Foto: Bruno Leonel

Sábado (5/11) – No Dia seguinte, em um ambiente mais confortável, o Iate Clube – Mas que, em alguns momentos, teve a qualidade de som prejudicada pela quantidade de reverberação (Sobretudo em shows mais pesados como o do Motorocker) – recebeu nomes mais novos, como o Loladéli que fez uma apresentação bastante intensa (Mesmo tendo tocado apenas meia hora), junto à veteramos-mor como o aguardado Di Melo (Nome mais antigo do festival), que tocou acompanhado da banda londrinense Sarará Criolo. Hits de seu disco clássico (1975) como (Kilariô e A vida Em Seus Métodos Diz Calma) assim como faixas de seu disco, ‘O Imorrível’ lançado 41 anos depois… animaram a plateia. “Tenho ainda umas 400 músicas inéditas feitas… Mas nunca se sabe né? Não é porque sou ‘imorrível’ que terei tempo de gravar tudo isso(risos)”, brincou o cantor, durante entrevista, quando falou sobre os próximos projetos. História com H maiúsculo mesmo. Diferentemente do que muita gente pensa, durante esses anos todos, Di Melo continuou ainda lançando alguns trabalhos, porém, de forma independente ao longo das décadas de 80 e 90. Destaque também para as boas apresentações do Phantom Powers e o hard rock ‘uniformizado’ do Motorocker, com a apresentação mais pesada da noite.

Duo Phantom Powers (De Porto Alegre) durante show no Demo Sul - Foto: Bruno Leonel/Rubrosom
Duo Phantom Powers (De Porto Alegre) durante show no Demo Sul – Foto: Bruno Leonel/Rubrosom

Domingo (06/11) – No domingo o show aconteceu no Barbearia (Na Quintino Bocaiúva) e focou em bandas de peso – Não apenas de som, mas também de habilidade e virtuosismo. Como é o caso das londrinenses Hellpath, já com dez anos de estrada, e que se preparam para o próximo disco “Though the Paths of Hell”. Também de Londrina o trio de progressivo Imagery levou seus andamentos truncados e riffs técnicos para os palcos do Barbearia. Recentemente a banda lançou um single intitulçado  “End of The Line“.

Quinteto londrinense Hellpath se prepara para lançar novo disco em breve - Foto: Gabriela Campaner (Shameless)
Quinteto londrinense Hellpath se prepara para lançar novo disco em breve – Foto: Gabriela Campaner (Shameless)

Quinta-feira (10/11) – Em um clima ora mais intimista, ora mais expansivo – Com shows ocorrendo na casinha e no palco principal do Bar Valentino – o Demosul reservou um dia dedicado apenas à música instrumental. Toda verve e técnica da violonista gaúcha Andrea Perrone abriram os trabalhos em uma apresentação intensa e envolvente. Entre as faixas, a cantora ainda parava para conversar com o público e contar breves histórias antes de cada faixa. Viagens e também impressões dos lugares por onde passou aparecem como inspiração para as canções da artista.

Andrea Perrone durante apresentação na casinha do Bar Valentino na última quinta (10) - Foto: Bruno Leonel/Rubrosom
Andrea Perrone durante apresentação na casinha do Bar Valentino na última quinta (10) – Foto: Bruno Leonel/Rubrosom

O som intimista de Andrea contrastou com o som enérgico do quarteto Greengrass Brothers, com seu Bluegrass cheio de rítmo e também irreverência. Com Bruno Lopes no banjo, Nahem Romano no baixo acústico, Daniel Romano no violão e João Victor no violino, o Greengrass Brothers animou o público, que, às palmas e gritos, acompanhou o show animado. Para o próximo ano, gravar um EP está entre os planos do quarteto

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Foto: Fagner Bruno

A ordenação e a melodia dos shows na casinha deram sentido ao peso sonoro e caos (No melhor sentido da palavra) dos shows no grande palco do Valentino. A londrinense Octopus Trio foi uma grandes surpresas da noite com seu jazz/rock cheio de improvisação e dissonâncias. Embora tenha já um público notório em espaços dedicados à música instrumental, o grupo – Diga-se de passagem um dos mais competentes do festival – ainda não é conhecido por grande parte do público que acabou surpreendido pelo virtuosismo e técnica dos integrantes ainda jovens (O grupo se formou nos confins do departamento de música da UEL).

Foto: Bruno Leonel/Rubrosom
Foto: Bruno Leonel/Rubrosom

Em seguida, os brasilenses do Muntchako fizeram outra apresentação de destaque da noite. Unindo percussões, samplers e dinâmicas de rítmo frenéticas, o trio fez uma apresentação curta tocando canções novas e algumas pertencentes a seus singles mais recentes ‘Cardume de Volume’, lançado no ano passado, sendo o mais recente deles.

Muntchako em ação nos palcos do Valentino - Foto: Bruno Leonel/Rubrosom
Muntchako em ação nos palcos do Valentino – Foto: Bruno Leonel/Rubrosom

Por fim, como uma das bandas mais aguardadas da noite, o Macaco Bong fechou a noite com uma apresentação cheia de groove e fúria. O guitarrista Bruno Kayapy, que tocou um Del Vecchio Tenor de quatro cordas, tirou sons e texturas improváveis do instrumento – soando talvez mais barulhento que uma guitarra propriamente dita.

Sexta-feira (11) – Neste dia os shows aconteceram em dois palcos: No Cemitério de Automóveis em Londrina e no Sesi. Por questões logísticas não pudemos acompanhar o evento nesta data, na qual, tocaram Etnyah, Mucambo de e  Bantu, Bandinha Di Da Dó. E também no Sesi onde tocaram Montauk, Weird Family e Abacate Contemporâneo – Mais informações podem ser vistas no site do Demosul.

Sábado (12) – Na última noite do festival, novamente de volta ao Iate Clube, dessa vez com um som um pouco melhor do que no sábado anterior (Ainda bem), quem iniciou os shows foi o trio londrinense Red Mess com seu stoner rock de peso. Provavelmente a grande banda revelação da cidade em 2016, o grupo segue em uma boa fase com shows bastante elogiados um atrás do outro – Foram a única banda londrinense escalada para tocar no Ahead, mais recentemente – e se prepara para o lançamento do primeiro disco no próximo ano.

Foto: Gabriela Campaner (shameless)
Foto: Gabriela Campaner (shameless)

Reminiscentes do Haming Moe (Banda extinta em 2011) o quarteto paulista Mocho Diablo subiu aos palcos do Demo Sul pouco após ás 22h levando seu stoner – Com forte influência grunge – ao Iate Clube. O amigo Pedro Gonçalves escreveu melhor sobre o show AQUI 

Uma das bandas de ’10 anos atrás’ como citou o início do texto, foi o quarteto Convulsão que fez sua segunda reunião do ano – Após ficar 20 anos afastada dos palcos, desde 1996. O grupo com forte influência do rock brasileiro dos anos 80, sobretudo Titãs (Da era ‘Cabeça Dinossauro’), o grupo, integrado por Marcelo Domingues (Organizdor do Festival) resgatou faixas de sua última demo intitulada ‘Na Terra da Malandragem’ – O público prestigiou, e alguns fãs antigos presentes puderam relembrar tempos antigos, tempos nos quais era mais difícil arrumar lugares para tocar na cidade.

Convulsão durante show no último sábado (12) no Iate Clube - Foto: Gabriela Campaner/Shameless
Convulsão durante show no último sábado (12) no Iate Clube – Foto: Gabriela Campaner/Shameless

Uma festa! Sim, festa… Esse foi o clima durante a apresentação do octeto de ska, rockabilly, dixie e tango Rosario Smowing, diretamente da Argentina para os palcos Londrinenses. Com repertório calcado em seu disco mais recente “No Te Prometo Nada”, lançado neste ano. O carisma e envolvimento do grupo – Que contava com teclados e também trio de metais, acompanhando a performance enérgica do vocalista Diego Casanova que pulou, dançou e até interagiu com a plateia – Emulando as vezes um curioso Sinatra latino. O público apreciou bastante.

Foto: Gabriela Campaner/Shameless
Foto: Gabriela Campaner/Shameless

Em sua segunda apresentação pela cidade – Sendo a primeira em 2013, ainda na turnê do disco ‘Avante – o pernambucano Siba transformou o festival em um verdadeiro baile regional, fazendo com que muitos presentes pulassem e entrassem em rodas embalados pelo seu rock/manguebeat cheio de melodia e também com letras inteligentes. Faixas do trabalho mais recente do pernambucano, o disco ‘De Baile Solto’ (2015) como ‘Marcha Macia’ cativaram grande parte da plateia em um dos shows mais aguardados do festival. Destaque para o som do show, talvez o melhor em termos de qualidade (equalização) apresentado nos dois dias do festival.

Foto: Gabriela Campaner/Shameless
Foto: Gabriela Campaner/Shameless

Por último, mas nem de longe menos importante, restou ao gaúcho Edu K, e seu De Falla finalizarem os trabalhos de 2016. Injustiçados talvez pelo horário, e pela bombástica apresentação anterior – Como competir com um show que acabou de colocar centenas de pessoas pra dançar? – O trio subiu ao palco por volta das 2h30 da manhã, em um horário no qual boa parte do público já havia partido. Amparado por vários samplers e batidas de funk, o trio fez uma apresentação animada e cheia de colagens sonoras, misturando Tim Maia com rap americano, e até injetando groove na música dos Rolling Stones “Vamo empolgar como se a casa estivesse cheia”, brincou Edu K em um momento mais descontraído do show. Por fim, cantando o hit ‘Popozuda’, o músico desceu do palco, abrindo espaço na grade e chamou o público para cantar junto o refrão de uma das músicas mais tocadas no Brasil no final da década de 90. Show enérgico! As cerca de 40/50 pessoas presentes apreciaram.

Edu K, trajado em um estilo bem hip-hop durante apresentação no Iate Clube - Foto: Bruno Leonel/Rubrosom
Edu K, trajado em um estilo bem hip-hop durante apresentação no Iate Clube – Foto: Bruno Leonel/Rubrosom

No fim, o saldo do festival foi bastante positivo, com destaque para a variedade de gêneros, e também, qualidade das atrações. Algumas delas como o emblemático Di Melo, e o próprio De Falla (Que sim, é uma banda referência, surgida em uma época na qual pouco se cogitava misturar rock e funk) por não serem nomes de destaque para o grande público, seriam shows improváveis aqui na cidade foram de iniciativas como festivais, logo, a oportunidade de conferir nomes como esses sempre é válida. O preço foi criticado por algumas pessoas presentes, nos dias de Iate o valor chegou a R$ 40 em um ingresso inteiro, o que não é exatamente caro considerando a variedade de bandas, embora possa ser visto como um valor alto, considerando o atual momento de crise em todo o país. O evento se consolida como um importante foco de produção cultural, e também vitrine de artistas locais – A qualidade das bandas londrinenses foi um dos destaques – Embora, considerando seu papel dentro da cidade, valeria pensar em iniciativas futuras como por exemplo, atrações localizadas em bairros fora da região central o que, em tese, permitiria à públicos novos ter contato com novos artistas, e assim, fomentar criação de público para shows e festivais futuros. A falta de espaços para shows em outros bairros ainda pode ser um impedimento para isso, mas vale a reflexão.