Por Bruno Leonel

“Esse rap aqui foi feito em 1999, mas a letra, especialmente em relação à coisa da manipulação feita pela mídia continua atual”, comenta o educador musical Leandro Palmeirah. O rap em questão é ‘Televisão’ do grupo paulista ‘Face da Morte’. A letra, bastante extensa e cheia de referências à política brasileira do período, faz um paralelo entre diferentes momentos históricos do país assim como a ideia do tão almejado ‘progresso’ que simplesmente nunca foi alcançado segundo o narrador. Após algumas discussões sobre a letra, o assunto caminha para o tema das releituras feitas no gênero, em especial, versões de canções famosas modificadas, como ‘Cálice’ de Chico Buarque, que nos anos recentes, foi resinificada para toda uma nova geração após a versão feita pelo rapper Criolo (‘Afasta de mim a biqueira, pai, afasta de mim a Cocaine’).

Análises de letras de rap, assim como a história de outros gêneros são alguns dos temas discutidos nas oficinas - Foto: Bruno Leonel/RubroSom
Análises de letras de rap, assim como a história de outros gêneros são alguns dos temas discutidos nas oficinas – Foto: Bruno Leonel/RubroSom

Assim é mais ou menos o clima no projeto de educação musical realizado semanalmente próximo ao Conjunto Vista Bela (Região Norte de Londrina). Além de Leandro, a troca de ideias é guiada também pelo músico e professor João de Carvalho que também leciona no grupo. Acontecendo já desde o ano passado, a ideia do projeto ‘MH2 Música e Hip-Hop’ é levar um pouco de história da música (Dialogando com outros gêneros) e também da cultura do Hip-Hop para crianças e adolescentes da região, tratam-se de dois cursos paralelos. O projeto conta com o apoio do Programa Municipal de Incentivo à Cultura (PROMIC), “Tem o curso do João ‘A Canção e seus Sentidos’ (Que também possui um blog) e o meu que é ‘Para além das fronteiras do Hip-Hop’ a gente fala sobre tudo, é um sincretismo musical sempre relacionando à cultura popular, culturais regionais, gêneros como a tropicália, a influência de elementos como candomblé, literatura de cordel e por ai vai…”, comenta Palmeirah.

O educador, que também é integrante do grupo ‘Família IML’ cresceu na região do Cinco Conjuntos e conta que vive no Vista Bela já há 5 anos, quase desde o início do bairro. “Existem problemas estruturais, de equipamento público. Falta segurança e também arborização por aqui, no calor é muito quente e no frio isso aqui vira uma Sibéria também, a gente tem que se adaptar né? A gente tem que criar uma resistência e se reinventar todos os dias. O próprio Hip-Hop apareceu na minha vida assim, a gente tem que procurar novas formas de sobreviver, plantamos algumas árvores e estamos fazendo arte dentro do bairro.”, comenta Leandro sobre algumas das dificuldades enfrentadas na região.

"Outro dia um menino chegou com uma letra de funk, achei interessante a forma como ele escreveu, um refrão rico, com bastantes mensagens, esse tipo de coisa é um talento escondido por aqui...", comenta Leandro Palmeirah - Foto: Bruno Leonel/Rubrosom
“Outro dia um menino chegou com uma letra de funk, achei interessante a forma como ele escreveu, um refrão rico, com bastantes mensagens, esse tipo de coisa é um talento escondido por aqui…”, comenta Leandro Palmeirah – Foto: Bruno Leonel/Rubrosom

Atualmente o projeto ocorre todos os sábados em uma sala cedida pelo SESI (Que também é sede de outros projetos em dias diferentes). Segundo ele, devido à falta de árvores, em dias quentes a dificuldade em caminhar pelo bairro é grande, o que algumas vezes influencia também no número de alunos presentes. “Ano passado houve um pessoal bem empenhado que participou, alguns meninos traziam violões também. Em 2016 estamos buscando uma nova safra de alunos…. Aquele pessoal do ano passado ainda não retornou, alguns precisaram começar a trabalhar, outros casaram, mas, a gente pretende continuar fazendo o projeto” comenta o educador.

João de Carvalho durante aula de violão para aluna do projeto. Temas clássicos da música brasileira são frequentemente usados - Foto: Bruno Leonel/RubroSom
João de Carvalho durante aula de violão para aluna do projeto. Temas clássicos da música brasileira são frequentemente usados – Foto: Bruno Leonel/RubroSom

Segundo Leandro, a proposta do curso é voltada para meninos e meninas a partir de 10 anos que tenham já interesse pela arte, ainda que, não dominem nenhum tipo de instrumento ou técnica. Aulas de violão também são ministradas no local. “No geral, acho que as novas gerações tem uma certa dificuldade quanto à percepção de história. Uma vez levei uma música pra sala de aula e um aluno comentou ‘Nossa, isso deve ser muito velho, parece coisa lá dos anos 80’ (risos) assim, falta referência talvez né? O pessoal achava que esse tipo de coisa é muito antigo. Vivemos em uma época de muita informação, mas, de pouco aprofundamento. O trabalho aqui vem pra ‘linkar’ essas informações de uma forma mais consistente até isso virar conhecimento dentro da gente, informação pra eles não falta, o que talvez falta é uma condição melhor para lidar com essa grande quantidade de informação disponível. Em diferentes escalas, todo mundo irá passar por esse tipo de problema hoje, no meu dia-a-dia passo por isso também”, comenta o professor e músico João de Carvalho quem ministra o curso ‘A Canção e Seus Sentidos’.

Para este ano, Palmeirah conta sobre alguns eventos já previstos. Segundo ele, há um sarau  previsto para o dia 24 de abril, quando estarão presentes 10 grafiteiros, de fora da cidade, que estarão fazendo arte em muros do bairro. “O bairro não tem ainda uma identidade definida, a gente quer colocar logo de cara um dos primeiros de grafite na periferia aqui na região. É um projeto que estou fazendo com o Carão (Artista do Coletivo Capstyle), os caras são grandes profissionais e irão participar aqui, faremos também exposição de quadros e fotos” explica Leandro. Segundo ele, vários artistas ligados ao Movimento Negro também estarão colaborando. “É importante mostrar esse lado da visibilidade do negro nas comunidades carentes, na universidade, de repente isso pode incentivar mais interessados a serem leitores críticos, ouvintes, é importante bater nessa tecla ai para o jovem daqui ter acesso à mais informação. Sem incentivo ele pode acabar procurando outro caminho.”, ressalta o educador.


Serviço

Projeto “MH2 Música e Hip-Hop”
Todos os sábados às 16h
Rua André Buck 641 (Próximo ao Posto de Saúde)
Jardim Pandovani/Vista Bela  Londrina-PR

Informações:
Leandro Palmeirah – (43) 3357-2326/ 9134-0359