Por Bruno Leonel

Logo na entrada, um cartaz já alerta os visitantes; A frase “Obra, novo museu de Londrina” aparece escrita em um painel onde uma versão modernizada (E com muito mais andares) do Museu de Arte de Londrina é mostrada. Ao redor, materiais como uma carriola, morros de areia e até uma pilha de tijolos deixam claro que uma reforma acontece no espaço, pelo menos, para os mais desavisados… Provocando uma estranheza peculiar no público, os objetos todos são parte da obra “Demolição do Museu’ do artista Romulo Milanese (Bauru/SP), uma das oito obras integrantes da exposição Passageira 16, aberta no último fim de semana em Londrina.

Obra 'Canto 180' de Marisa Bueno (São PauloSP) - Foto: Bruno Leonel
Obra ‘Canto 180’ de Marisa Bueno (São PauloSP) – Foto: Bruno Leonel

Com oito obras inéditas, dispostas de modo a se tornar parte do Museu de Arte de Londrina (MAL), a exposição coletiva PASSAGEIRA 16 ocupará o edifício projetado por Vilanova Artigas até 30 de setembro. A entrada é franca. De acordo com a diretora da PASSAGEIRA 16, Louisa Savignon, a intenção da exposição é propor reflexões que abordem a existência e os vários papéis desempenhados pelo Museu de Arte, em cujo prédio funcionou, até 1988, a antiga rodoviária da cidade. “São oito propostas diferentes, que entenderam a proposta site specific do projeto, e que, juntas, propõem uma interessante reflexão sobre aquele espaço tão particular e caro a todos os londrinenses”, diz.  As propostas artísticas escolhidas pela comissão de seleção composta por Danillo Villa, Fatima Savignon e Rogerio Ghomes representam variadas formas de expressão, da performance à vídeo-arte, passando pela arte sonora e pela instalação. Quem esteve no museu também pode acompanhar ao ‘happening’ artístico do coletivo Barafunda; Cerca de 25 pessoas, portando objetos diversos e elementos como ‘sal bovino’ realizaram uma manifestação artística que dialogava com vários temas ligados à mostra (Como a passagem do tempo e memória). “É um projeto que estamos desenvolvendo há bastante tempo e, paramos, para apresentar essa etapa aqui. A ideia é mexer com elementos guardados, como que para ‘purificar’ alguma coisa… Pensando na coisa do ‘sermão dos peixes’ do Padre Vieira, então, a gente ta limpando um pouco o espaço. É um ato onde os objetos falam, cada integrante trás algum objeto e contamos uma história a partir de cada um dos participantes. Durante o evento esse ‘happening’ irá ocorrer outras vezes, acho que não da mesma forma, mas mantendo a ideia…”, contou o professor de artes Claudio Luiz Garcia, um dos organizadores da apresentação.

A obra 'Demolição do museu' com elementos de uma suposta reforma, cria um contraste peculiar com a paisagem da cidade - Foto: Bruno Leonel.
A obra ‘Demolição do museu’ com elementos de uma suposta reforma, cria um contraste peculiar com a paisagem da cidade – Foto: Bruno Leonel.

Há obras que brincam com o tridimensional –  Como as ‘colunas curvas, dispostas em uma das salas principais do préio, intitulada “Canto 180’ de Mabu (São Paulo) e o ‘Monumento de Vento’  de Márcio Diegues (Que consiste em estruturas de tecido penduradas no teto externo do prédio, até obras que buscam ressignificar trabalhos de outros artistas, brincando um pouco com a coisa da pós-modernidade como é a obra ‘Zona de Desconforto’ de Felipe Cidade (São Paulo/SP). ” No trabalho eu me aproprio de cavaletes da Lina Bo bardi, fazendo uma intervenção, aplicando uma tela (De insulfilme de 90%) que impede a translucidez do material. É um trabalho que consiste em repensar a relação do estado de crise, no geral, com os espaço de arte, e o que acontece com eles neste período de tempos de transição, mudanças econômicas… O cavalete da Lina (da época do modernismo) foi um marco de sacralização dos museus… após serem retirados nos anos 90, recentemente, os cavaletes voltaram, meio que como ‘retornar’ ao seguro para poder voltar a trazer pessoas para o museu… No meu trabalho eu questiono um pouco esses posicionamentos. Essa volta do cavalete seria andar para trás ou para a frente? Meu trabalho questiona esses posicionamentos…”, contou o artista à reportagem do RubroSom.

Coletivo 'barafunda' realizou o trabalho homônimo, que envolveu apresentação de objetos durante a abertura da mostra - Foto: Bruno Leonel.
Coletivo ‘barafunda’ realizou o trabalho homônimo, que envolveu apresentação de objetos durante a abertura da mostra – Foto: Bruno Leonel.

Passando pela multimídia e por linguagens diversas há obras que brincam com a iluminação, como as luzes coloridas do artista William Zarella, autor do trabalho”1.650,809 km²”, o áudio da atual rodoviária gravado e reproduzido em looping total (Do trabalho ‘a passageira’ de vanessa s) e também o vídeo, editado com fragmentos do Google Street View no trabalho em vídeo ‘Passageiro” de  Jean Yoshimura. O trabalho, que chama a atenção por ‘comprimir’ a passagem do tempo e a mudança de paisagens em poucos segundos, dialoga com temas da efemeridade e o espectador colocado na posição visual de um passageiro. “Eu fiz ele como matéria da pós-graduação em fotografia e vídeo, em 2015, o trabalho tem essas duas linguagens. É um trabalho que dialoga totalmente com essa coisa da proposta, embora não tenha sido intencional – o trabalho já estava feito quando houve a abertura do edital. A ideia é a do passageiro como efêmero, tem esses dois lados, do efêmero e do personagem transitório…. “, contou o artista.

Artigas e Londrina

Um dos objetivos da Passageira 16 é tentar interpretar um dos comentários feitos por Artigas quando de sua última visita à cidade, em 1983. Naquela ocasião, disse o ícone modernista sobre o tombamento histórico da antiga rodoviária: “Eu fiquei contente, não porque fui eu que fiz. Nada a ver com a forma feita. Depois de feita, a diaba vira as costas, esperneia por todo lado, faz o que bem entende. Vai embora, faz seus casamentos, se esfrega com o povo e ganha qualidade própria. E o povo se serve, como a uma caneca velha, estende roupas. A obra artística criada, que foi produto do pensar, assume independência.”

As obras '1.650,809 km²' (fundo) e "A passageira" (Caixas de som a frente dialogaram com luz e também a sonoridade do local - (na 'passageira' um áudio em looping, com gravações da atual rodoviária, era reproduzida ao público) - Foto: Bruno Leonel.
As obras ‘1.650,809 km²’ (fundo) e “A passageira” (Caixas de som a frente dialogaram com luz e também a sonoridade do local – (na ‘passageira’ um áudio em looping, com gravações da atual rodoviária, era reproduzida ao público) – Foto: Bruno Leonel.

Além da antiga rodoviária, a parceria entre João Batista Vilanova Artigas (1915-1985) e Carlos Cascalgi também projetou alguns dos prédios mais importantes de Londrina, a saber: edifício Autolon (rua Minas Gerais, 194, inaugurado em 1951), Cine Ouro Verde (rua Maranhão, 85, pronto em 1952), a Casa da Criança (praça Primeiro de Maio, 110, concluída em 1955), e ampliação da Santa Casa (rua Senador Souza Naves, 441, finalizada em 1955), além de outros projetos que não foram executados.

Antiga rodoviária

Elemento urbano inspirador da Passageira 16, o edifício do Museu de Arte de Londrina foi inaugurado em 4 de outubro de 1952 para ser a quarta rodoviária da cidade. A execução do projeto assinado por Artigas e Cascaldi tomou quatro anos devido à complexidade de suas formas, sobretudo os arcos de concreto armado.

Porta de entrada da cidade por quatro décadas, o antigo terminal rodoviário foi tombado pela Secretaria de Estado da Cultura, em 1974, como o primeiro prédio de arquitetura moderna do Paraná. Em 1988, com a inauguração da nova rodoviária, o edifício foi fechado, reabrindo apenas em 1993 para se tornar museu de arte.


Mostra Passageira 16
No Museu de Arte de Londrina (Rua Sergipe, 640) até o dia 30 de Setembro