Por Bruno Leonel

Inquieto, sagaz e vidrado pela cultura e história da América Latina. Essas são algumas das características do jornalista, escritor e tradutor Eric Nepomuceno, que acumula décadas de trabalho dedicados ao jornalismo seja escrevendo para jornais do Brasil (E de fora) realizando traduções ou ainda escrevendo livros, como seu mais recente trabalho “A memória de todos nós”, publicado no ano passado, e que reúne histórias passadas em três países que passaram por ditaduras na América Latina: Argentina, Chile e Uruguai.

"Eu costumo dizer que fiz parte da última geração escolarizada desse país... A partir do golpe de 1964 a educação virou uma piada", afirmou Eric durante a conversa - Foto: Bruno Leonel/RubroSom.
“Eu costumo dizer que fiz parte da última geração escolarizada desse país… A partir do golpe de 1964 a educação virou uma piada”, afirmou Eric durante a conversa – Foto: Bruno Leonel/RubroSom.

Na última semana, o profissional esteve na Universidade Estadual de Londrina participando de um bate-papo com estudantes e profissionais da área no último dia 15, no Centro de Estudos de Comunicação e Artes (CECA) na Universidade Estadual de Londrina. Durante a conversa com alunos, Eric falou sobre o panorama do jornalismo atualmente, sobre o cenário atual político do país assim como a visão limitada da grande imprensa para os países da América do Sul e Central – Que muitas vezes retratam o Brasil como algo ‘a parte’ do que é considerado América Latina.

Nascido no ano de 1948 em São Paulo. Eric começou como jornalista em 1965. Em 1986 abandonou o jornalismo diário, depois disso escreve ocasionalmente para a imprensa do Brasil, da Espanha e do México. Traduziu para o português obras de Julio Cortázar, Eduardo Galeano, Gabriel Garcia Márquez, Juan Carlos Onetti, entre outros.  Eric também está na TV fechada – Canal Brasil – com o programa de entrevistas “Sangue Latino”. Um programa calcado na cultura latino-americana que discute de um modo inovador e experimental questões que em algum momento da vida serão pertinentes. Confira algumas das respostas do jornalista durante o encontro.

(Pergunta feita por Beatriz Amaro) Meu trabalho de conclusão de curso é sobre a revista Piauí, então, tenho estudado muito essa relação entre jornalismo e literatura. Meu orientador me disse que seria interessante estudar a relação da reportagem como uma ‘salvação’ do jornalismo impresso… Eu fiquei um pouco cética sobre essa perspectiva, queria que você comentasse sobre isso. Desse fim da reportagem…
Eu poderia falar horas sobre isso, porque, acho que a reportagem é a essência do jornalismo. Quando os jornais ‘retiraram’ a reportagem, por causa do espaço, do custo, deixaram de ser jornais. Jornalismo no Brasil, pra mim acabou. Eu agora estou descobrindo umas coisas estranhíssimas (Na internet) onde ainda leio reportagens… Tem ali o espírito da reportagem. Acho que o jornalismo impresso só teria salvação, não apenas com a reportagem, mas ele teria salvação se ele voltasse a ser um ofício. No momento em que o lado financeiro passou a determinar horário de fechamento, no momento em que dono de jornal virou empresário, prejudicou. Eu não acho que a Piauí seja nada novo, é uma publicação até boba…. Costuma ter bons textos, grandes reportagens. Vi uma reportagem boa, recentemente, sobre o Delcídio do Amaral (Que eu conheço bem) é um bom material, embora já tenham feito coisas melhores.

Tem jornais estrangeiros, jornais argentinos… revistas que trabalham melhor isso, mesmo nos dias atuais, que são boas publicações. O ‘El País’ mesmo com toda perda de qualidade, com toda crise ainda é um bom jornal, e tem reportagens.

Você falou durante a palestra sobre o ‘Brasil ter as costas viradas para a América Latina’, o que pessoalmente te motivou a ‘virar’ isso, a olhar mais para a América Latina?
Eu quando tinha 14 anos, fui ao Uruguai  com meu pai (Década de 1960) e eu achei estranhíssimo onde os ônibus eram iguais aos de Londres, os prédios eram iguais aos de Paris e eu achei interessante como um país era tão diferente, mesmo sendo tão próximo… Foi minha primeira curiosidade nessa época, eu achei coisas parecidas com a europa. Alguns anos mais tarde (Eu tinha uns 24) eu conheci a Argentina, ai desandei para a América Latina – É outra realidade, outra cultura e ao mesmo tempo muito próximo, porque não sabíamos nada daquilo? A literatura, a música, é tudo muito rico… Não foi nada político, ideológico. Quando eu resolvi ir embora do país acabei indo para Buenos Aires, não tive dúvida…

A sua geração de jornalistas Eric era muito mais ligada à cultura (Literatura, cinema) – Você fez traduções de muitas figuras importantes –  No pessoal que inicia no jornalismo hoje, falta um pouco desse hábito?
Eu costumo dizer que fiz parte da última geração escolarizada desse país…  A partir do golpe de 1964 a educação virou uma piada, meus irmãos se safaram porque meu pai era físico, minha mãe era fonoaudióloga, eles eram professores, a gente tinha um ambiente culto. Agora, para a média básica dos brasileiros, a educação acabou com o golpe. Eu não me orgulho de ‘ser a última geração’ assim, pelo contrário, acho um horror… As pessoas da minha geração tinham uma formação mais ampla porque a educação tinha isso.

Tenho irmãos mais novos que eu, lembro-me de como eles sofriam nas escolas. Os locais eram ‘estupidificantes’, que em vez de transformar pessoas em informadas, saiam de lá como ‘estúpidos’, isso já na década de 70. Hoje em dia, o aluno que sai do ensino médio hoje tem uma informação mais ampla do que muitos universitários brasileiros, o que é ruim. Há exceções claro, mas, na média…

Eric Nepomuceno conversa com estudantes de jornalismo no último dia 15 de Junho - Foto: Bruno Leonel/RubroSom
Eric Nepomuceno conversa com estudantes, professores e profissionais no último dia 15 de Junho – Foto: Bruno Leonel/RubroSom

Você comentou sobre o ‘panorama’ dos jornais hoje (Com a crise)… E sobre a parte cultural? Você acha que há alguma perspectiva para essa editoria?
(Interrompe) Você não tem jornalismo cultural no Brasil hoje… Você tem jornalismo de entretenimento e espetáculos, só isso. A cultura é outra coisa. Tem um suplemento bom de leitura, no fim de semana (Voltado á parte cultural) no Valor Econômico (Que é o melhor jornal do Brasil), eu sou assinante…. Há que ponto chegamos né? Pra eu assinar um jornal que não tem horóscopo, não tem futebol e nem sessão de cinema e que é o melhor do país…  Há que ponto chegamos?