Por Bruno Leonel

Pluralidade é um termo que condiz muito com a carreira da cantora e compositora paulista Ná Ozetti (Batizada, Maria Cristina Ozzetti). Do início de carreira na década de 70, passando pelo grupo Rumo, pelas participações como interprete de vários compositores importantes, até o lançamento do primeiro disco solo – Ná Ozetti, de 1988, vencedor do prêmio Sharp (Como Revelação feminina na categoria MPB), a artista chegou à terceira década de carreira.

A cantora e compositora Ná Ozzetti entrevistada em sua casa em 2008. Foto: Jefferson Dias/Gafieiras
A cantora e compositora Ná Ozzetti entrevistada em sua casa em 2008. Foto: Jefferson Dias/Gafieiras

Mais recentemente, Ozetti lançou em 2009 o álbum BALANGANDÃS, que traz canções de Assis Valente, Synval Silva, Ary Barroso, Dorival Caymmi e Braguinha, eternizadas na voz de Carmem Miranda. O trabalho conquistou o primeiro lugar da categoria de “melhor disco popular” no 5º Prêmio Bravo! Foi com o show deste trabalho que a interprete veio a Londrina no mês de Junho, quando conversou com o Rubrosom (Veja a seguir). “Fiquei impressionada com o canto dela, ao analisar profundamente a forma como ela interpretava e o domínio musical que ela tinha ao cantar (Além da coisa cênica na voz), tinha um humor…”, contou Ná durante a conversa.

Um pouco de sua trajetória, o trabalho recente no disco do pessoal do ‘Passo Torto’ (Que foi bastante elogiado) além da atual fase da música brasileira, que segundo Ná ‘É uma das grandes épocas da música brasileira’, foram alguns dos assuntos citados durante a conversa, realizada durante a passagem da cantora por Londrina. Confira a entrevista:

Pessoalmente a Carmem Miranda foi uma cantora que sempre te influenciou? Sua relação com a obra dela é antiga já?
Totalmente… Eu me aprofundei no conhecimento da Carmem quando entrei no grupo Rumo (Em 1979), porque o grupo tinha dois trabalhos; Um de canções inéditas, baseadas no canto falado, e um baseado no ‘rumo aos antigos’ em que fazíamos pesquisa de repertórios menos conhecidos de autores muito importante, para este processo todo, de onde se desenvolveu a música brasileira… Então pesquisamos Noel Rosa, Lamartine Babo, e na época tínhamos que fazer pesquisas com colecionadores, que tinham os discos, hoje em dia é mais fácil (Há coletâneas, internet) e naquela época era complicado, foi um processo muito interessante. Acabei encontrando muita coisa da Carmem e fiquei impressionada com o canto dela, ao analisar profundamente a forma como ela interpretava e o domínio musical que ela tinha ao cantar (Além da coisa cênica na voz), tinha um humor… Fiquei muito ligada nisso, sofri um monte de influências dessa forma de olhar a música

E a ideia de registrar esse repertório em estúdio? Começou com uma ideia sua? (O disco foi lançado em 2009)
Eu já cantava algumas coisas do repertório dela, antes disso, teve um produtor (Da gravadora MCD lá de São Paulo) que viu um show meu, e ao final do show, ele sugeriu que eu fizesse um registro com o repertório da Carmem. Fiquei até assustada né, seria até um pouco de pretensão…, Mas depois eu pensei, poxa, minha relação com ela é tão antiga né, tem tanto a ver com a minha forma de cantar que, eu posso contar sim, minha história pessoal com ela… Eu propús o show (Através do edital da Caixa Cultural), acabou passando no edital, fiz shows (Com essa mesma banda que me acompanha hoje) durante o ano todo de 2008, ai no ano seguinte gravamos…

O repertório do disco passa por autores como Ary Barroso, Sinval Silva, Assis Valente… Algum destes em especial te marcou como compositor?
Ah vários, né, eu gosto de todos… Tem um que tenho carinho é o Sinval Silva, ele não é tão conhecido quanto os outros, como Caymi, mas o Sinval tem umas músicas lindos (Adeus Batucada) que é um dos sambas mais lindos, de todos os tempos, e tem uma no show ‘Ao Voltar do Samba’, do Sinval, que é um espetáculo! É uma coisa maravilhosa, todos eles eu gosto, Braguinha, Ary Barroso…

Nos anos 90, você gravou um disco tributo  à Rita Lee… Essa coisa de releituras, tem alguma cantora que, no futuro, você gostaria de fazer um disco tributo, regravar o repertório?
No momento não tenho nenhum plano de pegar outros artistas para regravar. Esses tributos geralmente sempre partem de algum convite de produtores, ou da ideia que alguém me dá… Esse disco ‘Love Rita Lee’ foi a partir do convite do Costa Neto (Gravadora Dabliú) e, ele sugeriu que eu fizesse o disco, na época ‘Os Mutantes’ completaram 30 anos de carreira e ele sabia que eu gostava muito da Rita… Aí, ele me fez esse convite, mas, não sei, no momento não tenho nenhum plano de pegar outros cantores.

Falando da fase mais recente do seu trabalho, teve os dois discos mais recentes que foi o ‘Ná e Zé’ e também o disco com o pessoal do ‘Passo Torto‘, que foi bem elogiado pela crítica, como é seu contato com esse pessoal novo, considerado meio ‘vanguarda’ atual…
Maravilhosa né? Eu os conheci por volta de 2012 e, de lá pra cá, eu me identifiquei demais com isso, me identifiquei com a produção em grupo (Passo Torto) e comecei a frequentar demais todas as formações deles, e os trabalhos individuais e foi isso mesmo… Foi imediato! Adoro o trabalho deles, e me convidaram para fazer esse disco, de tanto eu segui-los nos shows (Risos), e foi uma delícia, nos damos muito bem…

E nomes atuais, tanto brasileiros como de fora, o que você tem ouvido?
Só desse ano já teve muita coisa legal; Uma cantora de Curitiba, Juliana Curtis, que está lançando um disco maravilhoso (Produzido pelo meu irmão) é um disco lindo… Tem a Juliana Perdigão (de MG) que está lançando um disco incrível, atualmente morando em SP, ela toca vários instrumentos! Uma cantora que tem um futuro brilhante também, muito jovem ainda, é a Lívia Nestrovski, projetada pelo Arrigo Barnabé… Lançou um grande disco há uns dois anos. Este ano lançou um com o Artur Nestrovski (Pai dela…), o próprio Metá Metá também, é o máximo. Acho que estamos vivendo um momento muito especial na música Brasileira, há coisas muito interessantes vindo, trabalhos de personalidades fortes.

Eu vi um crítico, recentemente, ‘cravando’ que hoje era o melhor momento da história da música brasileira… Em questão tanto da pluralidade, quanto, também mais gente produzindo e circulando com seus trabalhos, você acha que é um pouco de presunção afirmar isso?
Eu acho assim… A gente vive uma grande época, mas, tivemos muitas grandes épocas e é tão bom isso né? Mesmo essa época da Carmem Miranda, se você for pensar só nos compositores que ela interpretou, só tem gigantes… E tem vários! Compositores que foram gravamos por outrsa como Aracy de Almeida, Marília Batista. Tivemos depois, a época do samba canção, com grandes figures; Teve ainda a Bossa-Nova, em seguida, anos 60 e 70 com a Tropicália, o surgimento do Clube da Esquina. Nessa época ainda surgiu Edu Lobo, Hermeto Pascoal, Egberto Gismonti, além de Chico e Caetano, Gil. E ainda as cantoras né? Elis Regina, Gal Costa, que até hoje são grandes! Na década de 80 a Vanguarda paulista… etc. Acho que, de tempos em tempos, a gente vive momentos importantes.

O que acontece hoje é que, a produção independente passou a ser uma opção geral, até os artistas do ‘mainstream’ fazem produções independentes. E, ao mesmo tempo, esse processo de produzir de forma independente amadureceu, se profissionalizou, os artistas aprenderam a divulga-los, todo mundo faz o trabalho que quer fazer. Não existe bem um padrão mercadológico, existe para uma música mais de massa, mas acho que há um espaço grande para o experimentalismo, que não havia antes… Também não sei se afirmo isso que acabei de dizer (risos), sempre se experimentou isso. Nos anos 80 era mais fechado, ou você fazia parte de algo que era esperado, daquele padrão estético, ou você era alternativo… Essa coisa de experimentar linguagens está tranquilo para os artistas.