Por Bruno Leonel

Londrinenses que há pelo menos 20 anos comparecem a bares e shows de rock pela cidade, eventualmente, se lembram de histórias de shows realizados pela Madame X Producoes. Junto a outros idealizadores importantes da época, o grupo ajudou a colocar Londrina na rota de shows internacionais e nacionais durante um período muito fértil para a música na cidade! Na ativa desde 1997 até meados 2004, o projeto foi montado após uma reunião de amigos da cidade em, durante anos, foi responsável pela realização de importantes shows no circuito independente. Mesmo com várias dificuldades, ajudou a realizar alguns dos shows mais memoráveis que a cidade já presenciou. Veja a seguir!

Nada Surf (USA) + Grenade (Londrina) + Betty By Alone (Londrina) - 19/novembro/2004 - Tribos Hall - Foto: André Piazza
Registro do show de Nada Surf (USA) + Grenade (Londrina) + Betty By Alone (Londrina) em 19 de novembro de2004 no antigo Tribos Hall – Foto: André Piazza

O nome, até hoje icônico, surgiu meio que por acaso… “Madame X  era uma antiga ‘zona’ que havia próximo ao local do primeiro show, perto ali da Avenida Arthur Thomas, na região do Jardim Jamaica… Não tinha uma referência, ai, ficou o nome do local, que usamos para divulgar o endereço, e logo, acabou originando tudo.  Na época (1997), havia uma banda chamada Core (Banda pré Subtera) que tinha perdido equipamentos após o estúdio dos caras pegar fogo… E ai, o pessoal precisava juntar uma grana pra comprar aparelhagem nova. Eles estavam em um momento legal, fazendo bastantes shows e organizaram um evento para arrecadar uma grana, uns amigos nossos ajudaram. Nessa época eu não estava envolvido diretamente ainda… Foi meio que o começo”, contou em entrevista André Guedes, que junto com Eduardo Martins, foi responsável pela organização da produtora. Logo após surgiu a chance de trazer uma outra banda de SP, que estava em alta (Pin-Ups), e foi quando André começou a participar da organização.

Nada Surf (USA) + Grenade (Londrina) + Betty By Alone (Londrina) - 19/novembro/2004 - Tribos Hall - Foto: André Piazza
Nada Surf (USA) + Grenade (Londrina) + Betty By Alone (Londrina) – 19/novembro/2004 – Tribos Hall – Foto: André Piazza

De acordo com André, após essas primeiras ‘tentativas’ , novas oportunidades foram surgindo e bandas, algumas delas de destaque no cenário brasileiro da época, começaram a fazer contato com pessoas daqui buscando formas de viabilizar shows. “Logo depois surgiu a história do Fugazi (Banda icônica de rock alternativo dos anos 80/90, e que tocou em Londrina em 1997), alguém ligou para o Nelson Sato, ofereceram o show para Maringá e ofereceram pra gente… Poxa, Fugazi! Em Londrina, seria louco e deu certo… Eu tinha uma locadora de CDs na época e tinha feito alguns shows com o Garage Fuzz, Pin-Ups e começou a rolar…”, contou André.

Show do Lemonheas (USA) + All Systems Go (USA) + The Killing Flame (USA) em 13/maio/2005 no antigo República - Foto: Acervo Madame X
Show do Lemonheads (USA) + All Systems Go (USA) + The Killing Flame (USA) em 13/maio/2005 no antigo República – Foto: Acervo Madame X

Uma outra figura importante da época, segundo André, foi um Marcos Boff que já tinha algum conhecimento desse meio de produção e também começou a trazer bandas… Após uma certa procura, os shows de bandas estrangeiras começaram a acontecer na frequência de 4 a 5 shows por ano. “Outros produtores começaram a aparecer também… Teve o ‘Cezinha’ High Light Sounds que era parceiro nosso, depois teve o Nobre, a Braço Direito, cada vez mais produtores passaram a trazer nomes de fora pra cá, fora as bandas nacionais, e as locais, que a gente colocava nos eventos também…”, contou André Guedes. De cabeça ele cita shows como Fugazi, Superchunk e Buzzcocks como o ‘top 3’ de shows importantes para a cidade. “De diferente mesmo teve o Atari Teenage Riot, foi surreal para a época, foi surreal o som, estavam fazendo ainda sucesso na MTV… E teve ainda ‘Man or Astroman?’, foi um show impressionamente, muita gente até hoje fala que foi o show mais legal que trouxemos”, conta André.

Público no show de Lemonheas (USA) + All Systems Go (USA) + The Killing Flame (USA) em 13/maio/2005 no antigo República - Foto: Acervo Madame X
Público no show de Lemonheads (USA) + All Systems Go (USA) + The Killing Flame (USA) em 13/maio/2005 no antigo República – Foto: Acervo Madame X

Facilidades x Desafios – De acordo com o André, apesar das dificuldades, havia também alguns fatores que possibilitaram a realização de eventos do tipo na cidade. “Após o Fugazi, deu certo, e acabamos seguindo com os eventos trazendo várias bandas gringas… Era uma época muito boa, o Dólar era 1 para 1 (Em comparação ao real) e não ficava absurdo. Se fosse hoje por exemplo, U$ 5 mil, antigamente eram R$ 5 mil, hoje já são mais de R$ 15 mil, isso pra gente muda muito… Isso é uma variável muito grande, fora a variação das bandas, fora toda a inflação que existe. Com a cotação atual fica bem complicado”, contou André. Espaços eram um ponto difícil do período, o Show do Fugazi ocorreu na Kawali, uma antiga casa de Shows Sertanejos, teve o Mecenas, um bar onde cabiam 200 pessoas na Arthur Thomas, e acabou rolando.

Foto do Outside Festival realizado em 03/04/05 no The Muzik Hall - Londrina-Pr com as bandas: Overwhelm Terrorgruppe (Alemanha) Nitrominds, Mudcracks, Grenade (Londrina) Vermes do Limbo, Garotos Podres e Thee Butchers Orchestra - Foto: Acervo Madame X
Foto do Outside Festival realizado em 03/04/05 no The Muzik Hall – Londrina-Pr com as bandas: Overwhelm Terrorgruppe (Alemanha) Nitrominds, Mudcracks, Grenade (Londrina) Vermes do Limbo, Garotos Podres e Thee Butchers Orchestra – Foto: Acervo Madame X

Várias bandas nacionais como Autoramas, Ratos de Porão e Forgotten Boys vieram nessa época. “Teve a abertura do República, que teve outros nomes, já foi ‘Pier’ ali na beira do lago. Uma casa que abria muito para o público universitário, e depois, passou a abrigar muitos shows de rock… “Era um público tranquilo, porque, não dava confusão e bebia bem, alguns donos de casa começaram a abrir espaço por isso, criamos uma certa credibilidade… Até chácaras grandes foram disponibilizando espaço por aqui”, contou Guedes. “Sempre pagamos as bandas, uma época começamos a dar cachê para bandas da cidade, tinha vezes que o negócio não era bom, a gente conversava com as bandas… A gente dava alguma coisa, mesmo pouco, para dar uma ajuda. Para dar todo o suporte. e as bandas de fora a gente pagava, teve vezes que deu prejuízo, empatou, mas no geral foi mais empate do que lucro. Sempre buscamos muito qualidade, não economizávamos com luz, com som, então a gente buscava os melhores equipamentos, alimentos, hospedagem, as melhores condições que era possível dar para àquela época…”, contou o produtor – A produtora começou com o Willian e o Dininho (Core) e o Eduardo Martins, que mora em SP há algum tempo”, contou o produtor.

Há 20 anos produtora ajudou a colocar Londrina em circuito de shows
Grenade (Londrina) se apresenta em show com Betty By Alone (Londrina) em 19 de novembro de 2004 no Tribos Hall – Foto: André Piazza

O fim – Com o passar dos anos, mudança do público e também das dificuldades gerais que ocorriam a atividade da produtora passou a diminuir consideravelmente… “Após 2004, eu tinha casado, o pessoal começou a ter família, filhos e o pessoal começou ter outras preocupações, precisava ter uma grana sempre em casa, e, o mercado para isso piorou também… Começava a travar em buscar local, o pessoal começou a disseminar para outros tipos de som. Começamos a ter outras oportunidades também, criamos um nome legal, com respeito na cidade, começamos a atender o FILO, o Cabaré, ajudamos a produzir, Lenine, Cassia Eller, Zélia Duncan, Nação Zumbi… E eu vivo disso até hoje. Fui mantendo algumas festas com a Single Rock, com meu amigo Alexandre Heringer, e fizemos algumas coisas, como a festa Alta Fidelidade…. Acho que o grande mérito foi a formação de público, assim começa uma cena, vieram depois várias bandas, produtores legais, Londrina é uma cidade que pula músico das árvores, o que é muito positivo.

Registro do show de The Monsters (Suíca) + The Frenetic Trio (Londrina) + The Brown Vampire Cats (Londrina) em 14/novembro/2003 na Chácara Catriz - Foto: Acervo Madame X
Registro do show de The Monsters (Suíca) + The Frenetic Trio (Londrina) + The Brown Vampire Cats (Londrina) em 14/novembro/2003 na Chácara Catriz – Foto: Acervo Madame X

Memórias – De acordo com André, há diversas histórias curiosas da época, como ter levado Ian MacKaye (Fugazi) para a Mata dos Godoy “Quando os caras viram macacos, eles piraram! (Risos)”, conta André, além de diversas festas e troca de ideias com bandas e artistas nos bastidores e hoteis na região…  encontros e parcerias que os eventos promoveram na época. “A mídia era mais ligada nisso também, o Sato na Folha dava muito espaço, o pessoal do extinto Jornal de Londrina dava espaço, conseguíamos mandar press-kit pra imprensa daqui com CDs, material (Como muitas bandas não eram conhecidas), hoje em dia é mais difícil… A realidade é outra, todo mundo com família, filhos, ai depende de vários fatores… Fizemos eventos ano passado como o guitarrista Stanley Jordan, mas a vontade de fazer rock sempre existe né? A gente vem dessa linha desde a adolescência, hoje aos 44, o tempo passa…”, pontua André.