Por Bruno Leonel

“Pedro? Adriana?… “, perguntam em voz alta algumas das pessoas do grupo, enquanto caminham em círculos no meio do calçadão de Londrina. Todos vestem trajes pretos (Semelhantes à roupas de luto) além de objetos como pás e também fotos, de pessoas desaparecidas em meados da década de 70. Quem passou pelo local não ficou indiferente, parou para observar e para entender quem eram aquelas pessoas que ‘procuravam desaparecidos’.

Intervenção iniciou por volta das 12h30 no Calçadão de Londrina - Foto: Bruno Leonel/Rubrosom
Intervenção iniciou por volta das 12h30 no Calçadão de Londrina – Foto: Bruno Leonel/Rubrosom

A intervenção é resultado da oficina cênica “Procura-se um corpo”, realizada desde o último dia 27 , com a atriz e encenadora Tânia Farias (RS), dentro da extensão do 14º Festival de Dança de Londrina. Ela é integrante de um dos coletivos mais resistentes e emblemáticos no teatro político brasileiro, a Tribo de Atuadores Ói Nóis Aqui Traveiz, de Porto Alegre. Segundo a divulgação, Tânia buscou, de forma poética, trazer o debate e a reflexão sobre o que foram os anos de ditadura militar no país, entendendo a arte como ato de resistência.

O ato durou cerca de 30 minutos. Participantes portavam pás e fotos de pessoas desaparecidas durante os anos 70 no Brasil - Foto: Bruno Leonel/Rubrosom.
O ato durou cerca de 30 minutos. Participantes portavam pás e fotos de pessoas desaparecidas durante os anos 70 no Brasil – Foto: Bruno Leonel/Rubrosom.

O ato de intervenção ‘Em um espaço público’ era previsto no cronograma das atividades, mas, apenas nesta segunda foi revelado o local. Por volta das 12h30, desta segunda, o grupo formado por cerca de 30 atores caminhou pelo calçadão de Londrina (Próximo à Rua Professor João Cândido) em um semblante de seriedade e portando pás, quase como um cenário de luto e de sepultamento pelos ‘desaparecidos’ que buscavam.

Foto: Bruno Leonel/Rubrosom
Foto: Bruno Leonel/Rubrosom

Após alguns movimentos circulares, cada um dos membros seguiu em uma direção diferente do espaço, parando pessoas pelo calçadão e, com fotos antigas nas mãos, perguntando se alguém havia visto aquelas pessoas da foto. Nas imagens, já marcadas pelo tempo, rostos de anônimos e de pessoas desaparecidas durante a década de 70 e em situações ligadas à movimentos como a Guerrilha do Araguaia. Um grupo de senhoras pergunta sobre o ato e, um dos atores, explica do que se trata. Em sequência, um som bastante fúnebre – ecoando de caixas de som levadas pela produção – começa a soar no local, criando um clima mórbido. Há até uma das atrizes que é carregada, em uma espécie de cortejo fúnebre.   Os atores, um a um, começam a se deitar no chão, enquanto outros dos participantes riscam com giz o contorno dos corpos no chão – Quase como uma evidência de cena de crime. Mas aqui, a situação é diferente, pelo menos para os opressores não existe crime se não há prova, logo, é como se muitos dos ‘desaparecidos’ nunca tivessem existido. Por volta das 13h, a intervenção se encerra, com o grupo todo se dispersando, em silêncio, sem maiores falas sobre o que acabara de ocorrer.

Atores simulam um 'cortejo fúnebre' durante ato nesta segunda, no calçadão de Londrina - Foto: Bruno Leonel/Rubrosom
Atores simulam um ‘cortejo fúnebre’ durante ato nesta segunda, no calçadão de Londrina – Foto: Bruno Leonel/Rubrosom

Em meio a uma época de conflitos e de intensa instabilidade política no Brasil. A reflexão proposta pelos artistas busca resgatar eventos do passado para, talvez assim, traçar paralelos sobre as próprias contradições do nosso momento histórico atual. Em meio a um período de crise e, no qual, muitas pessoas ainda manifestam desejo da ‘volta’ do regime militar, que ceifou com muitas vidas e com famílias inteiras, o tom denso e mórbido da intervenção, ao fim, deixa até uma sensação de alívio, uma vez que nos recordamos de marcas da nossa história que, felizmente, ficaram no passado – Mas, que devem ser lembradas para que muitos dos erros, jamais, voltem a acontecer.