Por Bruno Leonel

Descaso com o meio ambiente, agressões a natureza (Muito inspirados em casos recentes de desastres ambientais, inclusive no Brasil) a construção irresponsável das hidrelétricas. Com contundência poética, “Dezuó – Breviário das Águas” vai ao coração deste tema central na curadoria do Festival de Dança de Londrina 2016. O espetáculo, que será apresentado pelo Núcleo Macabéa (SP) nesta quarta-feira (5), às 20h30, na Usina Cultural, dá voz aos povos silenciados, que tiveram de abandonar sua vida nas margens dos rios e migrar para os grandes centros.

Festival de Dança - Dezuó é apresentada nesta quarta
A apresentação de ‘Sezuó – Breviário das Águas’ do Núcleo Macabéa (SP) apresenta um menino de comunidade ribeirinha, exilado pelas margens do rio após a construção de uma usina – Foto: Cacá Bernardes

A expulsão do menino Dezuó e de sua família da Vicinal do Vinte Um, comunidade ficcional ribeirinha, motivada pela construção de uma usina hidrelétrica no Rio Tapajós (oeste do Pará, na Amazônia brasileira), é o mote deste espetáculo. Com direção de Patricia Gifford, a montagem da peça do poeta e dramaturgo paraense Rudinei Borges reconstitui a trajetória do menino que, após a dissolução de sua vila natal, refugia-se na cidade, onde se torna andarilho.

O ator Edgar Castro, também paraense radicado em São Paulo, está em cena com o músico Juh Vieira para narrar a trajetória memorialista do andejo Dezuó, que adentra as facetas adversas da cultura e das realidades do Brasil para refletir sobre a negação do direito à terra e a consequente disfunção social, fruto direto de uma política desenvolvimentista operacionalizada à margem da legalidade.

“Dezuó é aquele que narra aos demais cidadãos da pólis a ancestralidade da terra. Como dizia dos meninos o poeta Carlos Drummond de Andrade naquele livro de 1973, trata-se de um Menino Antigo, sujeito que desvela, no novelo da memória, o tempo arcaico”, diz Edgar Castro. “Assim, o homem-menino reinventa, por intermédio da palavra e da cena, as figuras familiares mais íntimas bem como as inquietações da infância: o medo, a dor, a perda, a presença alegre e dizimadora dos adultos em um contexto onde, imbuídas de força, estão as inquietações sociais da pobreza dos grotões, dos interiores onde ainda não há escola e o advento tecnológico das grandes cidades passa longe”.

A montagem do Núcleo Macabéa convida o público a mergulhar na história por meio de uma instalação cênica em arena, criada pela artista Telumi Hellen, que reproduz a inundação da comunidade e dos sonhos do menino. Com música ao vivo (utilizando instrumentos variados como viola, guitarra, bombo leguero, conga, caxixis, flauta e zabumba) e um texto de particular beleza, o espetáculo está indicado ao Prêmio Shell 2016 nas categorias cenário (Telumi Hellen) e autor (Rudinei Borges).

TEASER DEZUÓ – NÚCLEO MACABÉA from Bruta Flor Filmes on Vimeo.

“Dezuó, breviário das águas não é uma peça de teatro que escrevi sem tomar posição. É um ato poético que se põe do lado das vozes que ouvi: ribeirinhos, pescadores, migrantes, povos indígenas e campesinos. Nesta perspectiva, pus-me (eu mesmo) defronte dum espelho cego e me vi: amazônida, assim como sou: indígena e negro: parte da resistência (e não separado) da minha gente”, escreveu o dramaturgo Rudinei Borges. “Todavia, não é uma peça de teatro escrita por um ativista. É uma peça de teatro escrita por alguém que tenta a poesia como norte, desafio da linguagem que brota entranhada no corpo e na vida: é a poesia posta nas trincheiras da existência. Sempre como uma Macabéa, um Sísifo ou um Jó que perambula com um troço pesado nas costas. Mas rebelados eles teimam e resistem: uma fresta para quem peleja o sonho de um tempo justo nunca é uma fresta apenas, é um rio que se levanta aguerrido para junto do mar”.

A montagem do Núcleo Macabéa convida o público a mergulhar na história por meio de uma instalação cênica em arena, criada pela artista Telumi Hellen, que reproduz a inundação da comunidade e dos sonhos do menino - Foto: Cacá Bernardes
A montagem do Núcleo Macabéa convida o público a mergulhar na história por meio de uma instalação cênica em arena, criada pela artista Telumi Hellen, que reproduz a inundação da comunidade e dos sonhos do menino – Foto: Cacá Bernardes

O grupo – O Núcleo Macabéa foi fundado pelo dramaturgo Rudinei Borges em 2011, com o processo de criação da peça “Chão e Silêncio”, encenada em 2012 nas vielas e casas de moradores da comunidade do Boqueirão, na zona Sul de São Paulo, região do Ipiranga. Propõe-se como grupo brasileiro de estudo teatral com ênfase na tessitura dramatúrgica inédita e no trabalho do ator a partir de pesquisa da palavra poética, da memória (história oral de vida) e da condição humana. O exílio, a retirância, a migração, o nomadismo e a andaria dos povos movem o Núcleo Macabéa para a composição de uma tecelagem metafórica das travessias – advinda, sobretudo, do encantamento poético.

Ingressos extras – A montagem do Núcleo Macabéa é preparada para receber um público intimista. Após a instalação da estrutura em Londrina, a organização conseguiu disponibilizar mais 20 lugares na plateia da Usina Cultural. Os ingressos custam R$ 10,00 (inteira) e R$ 5,00 (meia-entrada) e estão disponíveis nos pontos de venda (secretaria da Funcart, lojas Shop Ballet e Kinise do Boulevard Shopping) e na portaria da Usina, uma hora antes da apresentação.


SERVIÇO

Dezuó – Dezuó – Breviário das Águas (Núcleo Macabéa – SP)
Dia: 05 de outubro (quarta-feira)
Horário: 20h30
Local: Usina Cultural (Rua Souza Naves, 2380)
Duração: 75 minutos
Classificação indicativa: 14 anos
Informações: http://2016.festivaldedancadelondrina.art.br/