Por Bruno Leonel

O jornalista José Maschio, mais conhecido como Ganchão, lançou recentemente seu primeiro intitulado “Tempos de Cigarro sem Filtro” em Londrina. Com 152 páginas, o romance retrata o Brasil da década de 1970, quando a ditadura militar está instalada no país. Com referências de sua vasta experiência como repórter, Ganchão narra a história de Jaso e Maria, um casal unido pela miséria.

Segundo José Maschio, o livro foi escrito em um processo de aproximadamente 4 meses - Foto: Anibal Vieira
Segundo José Maschio, o livro foi escrito em um processo de aproximadamente 4 meses – Foto: Anibal Vieira

Eles vivem na periferia de uma típica cidade brasileira dividida por desigualdades sociais e econômicas. Jaso é um peão para qualquer trabalho braçal e Maria, uma lavadeira de roupas. “Eu sou humanista, com todos os defeitos e acertos, eu falo de todos… Eu tento refletir sobre valores, não sobre posições políticas, não canonizei ninguém”, quando cita sobre a preferência pela forma de contar a trama sem tentar ‘idealizar’ demais a polarização entre direita e esquerda que acontecia na época.

Jaso emprega dois garotos em sua empreitada de abrir valetas, roçar capoeiras e erguer cercas: Ruço e Lozinho. Realizando trabalhos de adultos, os meninos rapidamente abandonam a infância e passam a experimentar as crueldades do mundo e de suas condições sociais. A vida empurra Ruço e Lozinho para caminhos completamente diferentes. Ruço torna-se um militante na luta contra a ditadura e passa a levar uma vida na clandestinidade. Lozinho torna-se um boêmio da malandragem, um jogador de sinuca que passa a viver no mundo da jogatina. Segundo o próprio autor, escritores como Graciliano Ramos e Lima Barreto foram algumas das suas influências, sobretudo por mostrarem um ‘novo Brasil’, em comparação à outras literaturas que eram mais populares.

Em “Tempos de Cigarro Sem Filtro”, Ganchão oferece um retrato do período da ditadura militar a partir de visões de pessoas que não estavam conscientes dos acontecimentos. E mesmo alheios aos fatos históricos, em algum momento trombavam com o abuso de poder e com violência. Com uma escrita pautada pela oralidade, a literatura desenvolvida por José Maschio dá prosseguimento aquela iniciada pelo escritor João Antônio (1937 – 1996), onde a língua falada nas ruas, dentro do cotidiano das pessoas, é revelada com arte. Confira a seguir uma entrevista com o escritor:

Você já tinha publicado outros livros – Como ‘“Crônica de Uma Grande Farsa” , escrito com Luis Tasques – mas é a primeira vez que você assina um romance. Quanto tempo ai de produção, leitura e pesquisa pra concluir o trabalho?
Olha, escrever foi rápido, em menos de quatro meses tava pronto, lógico que você lê ele de novo e tudo mais, o problema maior foi com uma editora de São Paulo, acabei ficando dois anos disputando a possibilidade de transferir para cá, para a Kan editora, o processo todo foi bem agradável… Eu gostei do processo de escrever este romance.
E o processo de pesquisa, elaboração da trama, como foi?
É um romance baseado em fatos reais, e baseado em coisas que eu vivi enquanto militante de esquerda, contra a ditadura, durante minha adolescência, e baseado ainda na minha experiência de repórter, investigativo e tudo mais. Não foi feita uma pesquisa propriamente, lógico, uns e outros dados eu tive que checar, por exemplo falando dos anos 70, mas foi ok. Os personagens são todos fictícios, eles foram feitos pra alinhavar a história de acontecimentos reais… Por exemplo, uma hora falamos do Delegado torturador, se alguém pegar a memória da Folha de Londrina, vai saber que havia um Delegado na época que torturava e era do MDB. Eu não vou citar o nome do Delegado, porque não é o interesse, mas é tudo inspirado na realidade.  Foi bom ter ‘guardado’ o livro um tempo, ele fala sobre um período sombrio, e hoje, vivemos em outro período sombrio, tem gente pedindo intervenção militar, nem sabem o que foi a ditadura, o livro hoje, eu espero que sirva de alerta.

Hoje vivemos realmente este levante conservador, como você mesmo comentou, há um certo esquecimento da parte histórica… Esquecem o que foi.
É, o Brasil é um país sem memória, e eu como jornalista, independente do que estiver fazendo, sempre fui repórter, fico mais assustado ainda com estes países sem memória. No fim, talvez seja um alerta, o pessoal acha que pedir intervenção é a coisa certa, e coisa resolvida, e não é, trata-se de uma briga onde nós temos que lutar pela democracia.

Você que viveu as duas épocas, antes e hoje, você acha que hoje em dia há ainda um sentimento que é mantido, daquela época, de gente que defendia o conservadorismo, o regime militar…
Sim, naquela época havia uma classe média que era contrária ao regime, por isso que foi combatido e acabou definhando, hoje não, hoje nós temos uma classe média desinformada e que apoia, hoje é muito mais grave em termos civis, a sociedade civil está achando natural ser de direita, essa direita crescendo, com o golpe, estamos perdendo direitos sociais todos os dias, é quase um retrocesso próximo de 70 anos.

Vendo teu histórico, tanto profissional, como de formação, não houve preocupação em ser isento? Você deixa claro um posicionamento na obra…
Eu sou humanista, com todos os defeitos e acertos, eu falo de todos… Eu tento refletir sobre valores, não sobre posições políticas, não canonizei ninguém.

Teve seu livro de 2013, com o Taques, livro reportagem… Pra quem produz, exige muito mais trabalho realizar uma reportagem do que um romance, ou não?
O livro reportagem é jornalístico, você não pode inventar fatos, mas se você retratar algo, você precisa ser fiel… Não sou escritor, sou um repórter contador de histórias, agora, minha origem, minha vida é toda orientada pela reportagem investigativa.

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O autor: Formado em Jornalismo pela Universidade Estadual de Londrina, José Maschio trabalhou como repórter em jornais como Paraná Norte e Folha de S. Paulo. Como jornalista atuou ainda em diversos jornais alternativos, imprensa sindical e emissoras de TV. Atuou também como professor de Jornalismo na Universidade Estadual de Londrina. É autor do livro-reportagem “Crônica de Uma Grande Farsa” (2013), escrito em parceria com Luiz Taques. Atualmente, vive em Cambé (PR).