Por Bruno Leonel

Possuidor de uma escrita direta, que mistura surrealismo a referências do dia-a-dia, e ainda, reforçada por uma narrativa forte que provoca o leitor com certas doses de experimentalismo. Essas são algumas das características do romancista Ignácio de Loyola Brandão, 80, que esteve em Londrina, durante a última semana, quando participou de uma troca de ideias no Festival Literário (Londrix).

Ignácio Loyola durante evento no Festival Literário de Londrina - Foto: Bruno Leonel/Rubrosom
Ignácio Loyola durante evento no Festival Literário de Londrina – Foto: Bruno Leonel/Rubrosom

Possuidor de uma obra extensa – Sendo ‘Zero’ (1975) um de seus livros mais lembrados até hoje – passando mais recentemente pelo livro “Desta Terra Nada Vai Sobrar a Não Ser o Vento Que Sopra Sobre Ela” a obra de Ignácio atravessa gerações. Cronista do jornal O Estado de S. Paulo há 23 anos, Loyola Brandão acaba de ganhar o Prêmio Machado de Assis da Academia Brasileira de Letras, no valor de R$ 300 mil, pelo conjunto da obra. Êxito e reconhecimento de um escritor que queria ser cineasta – sonho realizado pelo filho. Loyola foi também jornalista, descobriu como era gostoso escrever romances e contos. Em entrevista ao Rubrosom, ele conta que “cada texto possui uma determinada estrutura…” e sobre os traços meio ‘surrealistas’ que o público pontua em sua obra, ele afirma, tem muito a ver com o momento (político) em que foram feitos. Confira entrevista do escritor ao Rubrosom.


Um aspecto que lembram sempre de você, quando falam em literatura é a forma como você cruza aspectos do surrealismo com uma linguagem até experimental e uma narrativa forte, você sempre teve preferências por essa mistura de informações?
Cada coisa acontece, de acordo com o momento… Quando as pessoas falam do ‘surrealismo’ e do fantástico, elas se esquecem que na época da ditadura (Quando foi publicado ‘Zero’ por exemplo), com a censura, ou a gente achava uma forma de dizer as coisas, sem que as pessoas descobrissem, ou então a gente tava perdido. Isso eu uso eventualmente, mas por exemplo, a maioria são todas histórias reais, cada livro, cada texto possui uma determinada estrutura, isso eu encontro na hora…  Eu reflito o que eu vejo, o Brasil é um país maluco.

Você começou a publicar trabalhos nos anos 60, recorda muito de suas influências da época?
Meu primeiro livro foi publicado em 1965, eu tinha 29 anos então… Mas, até ai eu já havia escrito muita coisa que acabava jogando fora. Nessa fase eu lia muito Graciliano, Ernest Hemingway, e um escritor chamando João dos Passos – foi um grande influenciador, que é quase desconhecido hoje, inclusive, descobri ele através de uma editora paranaense. E hoje em dia tem muitos outros… Cesare Pavese (um poeta italiano) Stendhal (Francês), emfim… Se for falar das influências vou longe.

Você tem curiosidade em acompanhar e ver autores novos?
Eu tenho, não tenho hoje mais tanto tempo de leitura… Mas eu acompanho, hoje mesmo ganhei livros da (Londrinense) Edra Moraes, e fiquei encantado! Em cada lugar descubro coisas novas, isso mostra o isolamento de escritores e dos estados no Brasil. A gente não conhece coisas de lugares diferentes, é um país cheio de talentos, mas fica restrito ás capitais e ao Sul… Hoje passei a tarde toda lendo a Edra, e, vou descobrindo, aqui e ali… Ainda preciso viver umas 3 vidas pra dar conta de tudo (Risos).

Recentemente tivemos ai o caso do Bob Dylan, que foi premiado com um nobel – mesmo não sendo exclusivamente das letras  – muita gente criticou, tem alguma opinião sobre isso?
Teve um crítico que ficou muito puto, ficou irado por dizer que o prêmio deve ser para escritores, mas o Bob Dylan é um escritor, um escritor de letras! E o mundo mudou muito, o prêmio Nobel é de 1901, já passou mais de um século e as coisas não podem ficar estagnadas. Então a poesia do Dylan merece um prêmio Nobel, deixa lá. Devem dar o prêmio para quem quiserem, acho ruim que nunca me deram um (risos).

Em Londrina, o escritor participou de um bate-papo durante o Festival Literário (Londrix) realizado no Museu Histórico - Foto: Bruno Leonel/Rubrosom
Em Londrina, o escritor participou de um bate-papo durante o Festival Literário (Londrix) realizado no Museu Histórico – Foto: Bruno Leonel/Rubrosom

Próximos projetos, você tem viajado bastante, mas, tem já alguma serie ou livro sendo feito?
(interrompe) eu estou fazendo um romance, mas eu não conto porque, tenho mania (Superstição) ou tique de não contar a história enquanto ela não está escrita…Senão ela vai embora.

Você é do tipo que remexe muito em textos feitos?
Muito, mas não antigos, gaveta é gaveta… Eu nem releio meus livros, acabei de publicar um trabalho, tenho uma primeira lida e, nem releio mais, senão eu vou encontrar coisas ali, e eu não tenho tempo, preciso ir em frente com meu trabalho.

Você é uma pessoa muito saudosista Ignácio?
Nem um pouco, eu vivo meu momento, meu mundo de agora… Eu uso o passado como matéria prima. As ideias vem da memória, mas não tenho nenhum saudosismo, o que passou passou. Tenho um show em SP  com minha filha (“Solidão no Fundo da Agulha”) onde eu, relembro alguns momentos, mas, sem nostalgia… Eu não quero nunca mais ter 20 anos na minha vida, ter 80 é uma idade ótima. Minha época é essa, estou viajando, estou fazendo crônicas, me apresentando, ta ótimo! Não é?

A crônica muitas vezes é vista como secundária em comparação a outros gêneros….
A crítica é preconceituosa, eles não leem a crônica como ela deve ser lida… Tem cronistas muito ruins, mas tem alguns muito bons. Desde Machado de Assis, Rubem Braga, Fernando Sabino, os mais novos Antônio Prata, Veríssimo… No paraná tem o Pelanda. O cronista reflete sobre a vida cotidiana no seu momento, você quer saber do Rio de Janeiro do Século passado, você recorre às crônicas. Quando você quiser , no futuro, saber sobre a realidade cotidiana desta época (hoje) você irá buscar os cronistas… Somos os intermediários das histórias para o futuro. A crônica bem feita tem uma alta qualidade, mas o pessoal ainda a vê de cima, uma bobagem.