Por Bruno Leonel

A noite foi de música e literatura na última terça-feira (13) em Londrina, durante a  abertura da 35ª Semana Literária Sesc & Feira do Livro, realizada no Sesc Cadeião Cultural. Em uma noite chuvosa e fresca (Mas nem tanto) a dupla curitibana Téo Ruiz e Estrela Leminski (Filha do escritor Paulo Leminski) realizaram uma apresentação intimista e envolvente para uma platéia bastante empolgada.

Estrela Leminski e Téo Ruiz durante abertura da 35ª Semana Literária do Sesc em Londrina - Foto: Bruno Leonel/Rubrosom.
Estrela Leminski e Téo Ruiz durante abertura da 35ª Semana Literária do Sesc em Londrina – Foto: Bruno Leonel/Rubrosom.

Baseados apenas pelas vozes, e pelo violão, o casal apresentou canções de sua autoria e de demais compositores, como Itamar Assumpção, grande referência da dupla que, em décadas passadas, chegou a ficar preso no mesmo prédio do Sesc Cadeião, quando este era ainda um presídio nos anos 80. Em rítmo descontraído e com direito à várias ‘estreias mundiais’ de novas músicas, o casal de artistas relembrou essas e outras histórias aos espectadores que, hora aplaudiram, e em outros momentos cantavam juntos com a dupla. As faixas estarão em um próximo disco do duo, com previsão de lançamento para 2017.

A estreia ‘mundial’ faz referências também à excursões da dupla já feitas por regiões como Estados Unidos e Europa, para onde irão novamente no próximo mês de outubro “Mas não tocamos samba!’, explicou Téo Ruiz ao comentar sobre a recepção do trabalho lá fora. “A gente já quebrava o gelo na hora. Não temos nada contra o samba, mas, não fez parte da nossa formação. A receptividade foi legal, talvez, porque nos propusemos a fazer algo diferente”, contou Téo em um momento da entrevista ao Rubrosom.

Além das óbvias referências musicais (Veja a seguir) o casal tem uma relação muito forte com a literatura. Em parceria, os dois assinaram o livro ‘Contra Indústria’ (de 2006) onde examinam um pouco sobre a atual situação da produção musical independente no país, na qual, muitas vezes, artistas precisam lidar com questões empresariais e burocráticas, além do lado artístico (Veja a seguir).  Após o espetáculo, Téo Ruiz fez o lançamento do livro A Autoprodução Musical (Editora Iluminuras), que apresenta uma série de conceitos e reflexões acerca das produções contemporâneas, baseando-se numa linguagem dinâmica e livre de formatações acadêmicas.O Rubrosom aproveitou a ocasião para uma conversa com o duo. Confira:


Vocês tem essa parceria já há 15 anos, com a mescla tanto da literatura com a parte musical… Qual das duas formas de arte ‘influenciou primeiro’ cada um de vocês?
Estrela: Comecei com a literatura mesmo, desde pequena sempre escrevi. Mas, na verdade, quando fui para a música era uma tentativa ‘vã’ de fugir um pouco da coisa dos meus pais… Quando conheci o Téo, tudo aconteceu através da música. A gente flertou através das músicas, um mostrou as composições para o outro, e a coisa engrenou…

Téo: Eu comecei mais com a música…. Comecei a compor, fazendo letras de música, e depois escrevi outros formatos. Até tenho um livro de poesia guardado, mas, eu nem me considero muito um poeta. Sempre fui mais da música, depois a literatura passou a ser incorporada, já musiquei alguns poemas e passei a entrar mais nesse universo.

O duo tocou canções inéditas e outras, já conhecidas, em cerca de uma hora de apresentação - Foto: Bruno Leonel/Rubrosom.
O duo tocou canções inéditas e outras, já conhecidas, em cerca de uma hora de apresentação – Foto: Bruno Leonel/Rubrosom.

Além das referências óbvias na parte literária (Leminski, etc), sobre a o lado musical, quais são outros artistas e cantores que influenciaram vocês?
Téo: Itamar Assunção (relembrado hoje) é grande referência, tanto para mim quando para a Estrela. Algumas outras são nomes como Lenine, Vitor Ramil, Maurício Pereira… Muita coisa de rock inglês, a islandesa Bjork, com essa parte maluca, experimental, além disso The Clash, Smiths (ingleses).

Estrela: Sempre gostei de bandas de rock muito esquisitas que, de alguma forma sempre influenciaram (Como ‘Ninho com Bombas’), Graforréia Xilarmônica me influenciou muito, um nome que meio que conectou meus dois mundos; A canção e o rock, foi uma banda que ouvi muito.

Falando um pouco do trabalho de produção em livros, vocês assinaram juntos o ‘Contra-Indústria’ (De 2006, sobre o mercado atual da produção musical que, frequentemente, exige que o artista trabalhe também como empresário e vendedor do próprio material), imagino que tem muito ali da experiência de vocês m. esmo com os shows e produções do duo… Hoje em dia, há uma exigência maior do artista nesse lado do ‘business’ ??
Estrela: Muita coisa desse livro já mudou, algumas para melhor (Outras não) e a gente acabou ramificando um pouco essa parte da pesquisa – Eu fui na parte musical, nas origens disso com o pessoal da Vanguarda Paulista, fiz esse mergulho, e o Téo foi mais na parte histórica, em como isso havia mudado através da internet…. Isso gerou tanto o livro, como também, a  FIMS (Feira Internacional da Música do Sul). Muita coisa se originou disso, o Téo tem uma atuação muito forte nessa coisa da política dos ‘auto produtores’ e pensar nessa cadeia. Isso também influencia nossa forma de trabalhar e compor. Estamos pensando já em um novo disco e, já querendo englobar o conceito que a gente sempre fala de trazer pequenas industrias em torno dos independentes, então, nosso próximo disco será absurdamente englobador … Teremos vários produtores, diretores de música, pessoas que influenciam nossa produção musical.

Estrela: Para fazer nossas músicas mesmo, pensamos sempre em arranjos cada vez mais minimalistas. Enxutos, em duas pessoas, o difícil é conceber coisas muito grandiosas e transportar isso para os lugares.

Téo: Eu sempre digo que hoje em dia, infelizmente, e também felizmente, o músico não tem mais como ser ‘só genial’, ser só artista… O cara ser descoberto. Não existe mais esse cenário. Muita gente, especialmente de gerações anteriores, tem dificuldade em escrever um projeto, montar um site, gerenciar uma rede social e, efetivamente, tem uma parte muito chata nisso. Eu adoraria poder só tocar e aguardar as coisas acontecerem ao redor, mas, não é assim… Falo felizmente também porque, quem percebeu isso, já sai na frente, arregaça as mangas e vai para o mercado. Já parte do pressuposto que não existe quem faça tudo isso por você.

Temos já um próximo trabalho em vista, mas, estamos pensando nele em uma forma já ‘empreendedora’, ele vai estar ligado por exemplo à vídeo clipes, cada música terá essa coisa visual, a gente está pré-produzindo por enquanto e a previsão ficará para o segundo semestre do ano que vem.

Vocês tem uma viagem, para fora do Brasil, planejada para outubro, como foi em outras experiências?
Estrela: Ano passado tocamos nos EUA, em Março, e em outubro estivemos na Europa. Teve uma receptividade interessante. O que notamos é que as pessoas não estão mais buscando aquela coisa ‘brasileira’, com versões bossa nova… Pelo contrário. Eles querem ver o que temos por trás disso, já há outros sambistas e grupos ‘tradicionais’ assim por lá.

Téo: A gente sempre explicava que vínhamos de uma cidade no Sul do país, onde faz muito frio e, falamos que não tocamos samba também… A gente já quebrava o gelo na hora. Não temos nada contra o samba, mas, não fez parte da nossa formação. A receptividade foi legal, talvez, porque nos propusemos a fazer algo diferente.


35ª Semana Literária do Sesc: De 13 a 18 de setembro
Mais informações pelo Facebook da dupla e no Sitehttp://www.leminskieruiz.com.br/