Por Bruno Leonel

“Eu vejo o ‘picho’ como um direito a cidade né? Um direito que foi negado a todos de uma forma geral, porque a população em geral não tem participação na construção da cidade, a cidade é imposta, então acho que a pichação é a melhor resposta que existe contra essa segregação espacial”, comenta o artista e ativista paulista Djan Ivson (ou Cripta Djan para os mais íntimos).

"O reconhecimento existencial do ‘pixo’ no campo da arte, é importante. Até porque o ‘pixo’ é um movimento muito mal compreendido e, se a gente não levar essa discussão para o campo da arte é mais difícil", comenta Cripta Djan - Foto: Bruno Leonel / RubroSom
“O reconhecimento existencial do ‘pixo’ no campo da arte, é importante. Até porque o ‘pixo’ é um movimento muito mal compreendido e, se a gente não levar essa discussão para o campo da arte é mais difícil”, comenta Cripta Djan – Foto: Bruno Leonel / RubroSom

Com cerca de 20 anos de envolvimento com a arte de rua e, mais especificamente, a pichação, Djan se tornou uma referência no meio, não só pelo trabalho urbano, mas também por ter sido um dos expoentes em levar a arte de rua à veículos da grande mídia e até para circuitos como o cinema – Djan participou do documentário ‘Pixo’ de João Wainer, e mais recentemente do filme ‘Pixadores’ do Iraniano Amir Escandari. Seu trabalho inclusive levou o tema para meios que usualmente não são ligados à arte das ruas, como na 29ª bienal de SP, quando o artista foi convidado a participar após ter realizado uma ‘intervenção’ (Responsável por algumas controversas) em um espaço do evento na Bienal anterior. Djan participou também de um processo curatorial de arte de rua na cidade de Berlim (Que é citado no filme de Escandari). Na ocasião, um problema com as políticas de patrimônio do país quase criou problemas para o artista e seus companheiros (Veja na entrevista).

O artista durante o processo de criação em Ago/2015 - Foto: Fabio Vieira (Do Flickr do Artista)
O artista durante o processo de criação em Ago/2015 – Foto: Fabio Vieira (Do Flickr do Artista)

Durante sua passagem por Londrina, como convidado da Semana de Arte (Quando também ocorreu exibição do filme ‘Pichadores’) Djan conversou com artistas e interessados durante evento na Usina Cultural. Cripta falou sobre um pouco de seu trabalho além de algumas questões sobre a importância da arte em espaços públicos e sobre a produção do filme.

Nota – A entrevista foi registrada durante um momento ‘coletivo’ da conversa, e as perguntas foram feitas por várias pessoas presentes. Confira:

Como surgiu o conceito do filme ‘Pixadores’ ?
O filme foi produzido por uma produtora da Finlândia, a ideia deles no começo não era fazer um filme sobre pichação. O diretor do filme (que é iraniano) veio aqui para o Brasil atrás de surfistas de trem né? Como alguns dos artistas participantes surfam em trens também, ele acabou chegando até a gente e falando que tinha interesse em registrar pessoas ‘surfando’ e essas coisas. Aí, ele acabou conhecendo a gente, ficando bastante tempo com o nosso grupo e tendo uma ideia do contexto em que a gente vivia. Ele gostou muito da coisa toda e sugeriu que a gente fizesse um filme sobre as nossas vidas. Foi um desafio para nós, tanto pra eles, o pessoal nunca havia feito um documentário, apenas filmes fictícios.

Muito tempo de produção foi feita para o resultado final?
As primeiras imagens foram feitas em 2010, houve outra bateria de imagens em 2012 e foi tudo finalizado em 2013. O filme também teve uma resistência aqui no Brasil, o lançamento foi em 2014, mas nenhum festival de cinema aceitou passar o filme por aqui (Acho que até devido á Copa do Mundo), isso mostra o retrato de um Brasil que nossas autoridades não querem mostrar, esse filme mostra muito a realidade das periferias de São Paulo, o pessoal prefere mostrar mais o lado das praias bonitas, como no Rio de Janeiro. O filme foca mais na periferia, no momento em que estamos pichando, e essas coisas…

Para você Cripta, há muita diferença entre o trabalho da pichação feito no Brasil e fora?
Na realidade, a pichação é uma manifestação brasileira, o que vem de fora do Brasil é grafite…. Porém, a pichação andou influenciando o grafite lá fora também. Você vê algumas influências em estilos de grafite lá fora. Berlim mesmo (Que aparece no filme) já tem um movimento de pichadores alemães que é baseado em pichações aqui do Brasil, mas que criou a própria identidade estética deles. Tive a oportunidade de ir até lá, pichar com eles…. Acho que depois de São Paulo, só lá mesmo que tem uma cena consistente. O que a gente vê é bastante intervenção na rua, mas o grafite ainda é referência mundial, acho que o ‘pichoo’ ainda vai se difundir em outros países, até espero que isso aconteça. Você teve por exemplo a cena de grafite americano, que começou em Nova York por exemplo, e que influenciou estilos em todo o mundo. Acho que isso pode acontecer com o ‘pichoo’ por exemplo.

Vocês tiveram um problema durante a passagem pela Europa por supostamente terem se ‘Envolvido em atos de vandalismo’ (Como é relatado no filme), como foi essa história?
Depois que a gente voltou , o que aconteceu foi que o Departamento de Patrimônio Histórico de Berlim foi lá e restaurou uma igreja (Que havia sido marcada por pichadores) a obra toda ficou em torno de 18 mil Euros (!!), ai, eles apresentaram essa conta para a bienal de Berlim, e a conta foi passada para o Ministério da Cultura (MinC) – Que foi quem financiou nossa ida para lá. O Ministério entrou em contato com a gente e pediu nossa defesa, nós fizemos a mesma alegando que havíamos nos encaixado em um projeto curatorial – Segundo Cripta, havia sido uma proposta dos próprios curadores fazer uma demonstração ‘ao vivo’ do processo da pichação- Quando você faz uma demonstração prática, você está incluindo a transgressão nisso, e isso ficou claro nos ‘autos’ do processo, e nós acabamos ganhando, a conta voltou para o instituto que organiza a bienal. Se tivéssemos perdido teríamos que ter devolvido todo o dinheiro da viagem. Nós contamos com um advogado muito competente que ajudou a gente de graça. (Segundo o artista, imbróglio todo demorou cerca de 2 meses).

Como o filme mudou o trabalho ou a vida de vocês?
Pra nossa vida não mudou nada… Mas, foi interessante ter o registro daquele período da nossa vida ser registrado, o ‘picho’ é um movimento de memória. O registro se tornou uma coisa muito importante para eternizar esse momento, ficamos felizes de ter um período da nossa vida registrado em um filme tão bem produzido.
Teve algumas coisas interessantes, o diretor filmou muita coisa separada, com a vida de cada um e teve coisas da vida do pessoal que aparece que eu apenas havia visto no filme apesar de sermos amigos há anos. Os cinegrafistas viraram quase ‘fantasmas’ no meio da gente, pegaram vários detalhes da vida pessoal de cada um, de um jeito muito específico.

O processo todo foi muito rico também. O filme já passou em mais de 30 países – Na Finlândia teve uma aceitação muito boa, ele entrou em circuito de cinema lá também. E passou em vários festivais de cinema na Europa, inclusive, a gente ganhou um prêmio na Polônia, foi até uma boa resposta para o curador da Bienal (Que era Polonês) onde tivemos o problema, e nossa surpresa foi a de, após passar em todos esses países da europa, entramos com ele em uma mostra de cinema em SP, onde ganhamos o prêmio. Em Berlim conhecemos vários artistas legais durante a parte filmada lá. Eles levaram a gente pra pichar um pedaço do muro de Berlim, aconteceu uma interação, uma troca muito positiva. Teve muita coisa filmada durante a produção que eu gostaria de ver, cerca de 90 horas foram gravas, mas, muita coisa ficou de fora.

Vocês estiveram em uma intervenção ocorrida na 28ª bienal em SP, como foi isso?
Na bienal de SP, foi a mesma proposta do evento de Berlim. Nós nos encaixamos em um projeto curatorial, mas, não éramos convidados oficias. O curador daquele ano veio a público na época informando que haveria (Durante a bienal) um andar vazio aberto para intervenções urbanas. Então a gente pensou ‘Se ta aberto, estamos convidados para pixar’, e mesmo assim eles reprimiram a gente, prenderam uma menina que estava com a gente (Por 50 dias), mas, a gente conseguiu reverter a situação. Em breve haverá um documentário que contará sobre essas ocupações…. Desde a de 2008, que foi a invasão até 2010, que foi quando voltamos como convidados oficiais da mostra. A gente entrou neste circuito justamente para testar os limites dele sabe?

Detalhes da pichação realizada na Bienal de 2008 em SP - Foto: Site oficial de Cripta Djan
Detalhes da pichação realizada na Bienal de 2008 em SP – Foto: Site oficial de Cripta Djan

E essa coisa de levar a pichação para outros ambientes? É importante isso para a função?
O reconhecimento existencial do ‘pichoo’ no campo da arte, é importante. Até porque, pixação é um movimento muito mal compreendido e, se a gente não levar essa discussão para o campo da arte (Mas sem buscar a mesma como pedestal) é mais difícil, o que nós reivindicamos foi esse reconhecimento por parte do circuito, já que muitos envolvidos se dizem prezar ‘pela arte’, como eles podem negligenciar a existência do picho? A gente não buscou isso para ser aceito, mas para ser entendido…. Porque o setor das artes reconhece o ‘picho’ mundialmente né? A gente participou das bienais em SP, depois da ‘ocupação’ fomos até convidados a participar de outra. Tivemos um relativo reconhecimento na rua, mas a pichação continua marginalizado, continua sendo crime…

Estudantes e artistas conversam com Cripta (De preto) durante evento em Londrina - Foto: Bruno Leonel / RubroSom
Estudantes e artistas conversam com Cripta (De preto) durante evento em Londrina – Foto: Bruno Leonel / RubroSom

Como você vê a importância disso que os pichadores fazem, para a questão do espaço urbano?
Eu vejo o ‘picho’ como um direito a cidade né? Um direito que foi negado a todos de uma forma geral, porque a população em geral não tem participação na construção da cidade, a cidade é imposta, então acho que a pichação é a melhor resposta que existe contra essa segregação espacial…. Até costumo falar, para que serve um muro? É como se ele fosse criado para ser pichado mesmo, eu vejo o ‘picho’ como um uso público da cidade, como um uso que é negado para a gente. Ele funciona como uma retomada simbólica da cidade, porque, a cidade e o centro não é um espaço que foi construído para a gente. De certa forma a gente ocupa né? Quando a gente pega um prédio na Av. Paulista ele acaba se tornando nosso, dentro da nossa linguagem, é uma espécie de inversão de valores que a gente acaba promovendo no espaço público, acho saudável a pichação para a cidade.


Sobre o artista

Djan Ivson ou Cripta Djan, como é conhecido nas ruas e no mundo das artes, nasceu em 1984 em São Paulo, começou a pixar em 1996, aos 13 anos entrou para gang “Cripta”, da qual faz parte até hoje. Ainda garoto conquistou espaço na metrópole realizando o maior número de pichos em raio de abrangência e dificuldade de realização. Sua ação nas ruas o consagrou entre os pichadores. Foi um dos pioneiros em uma das modalidades mais arriscadas da pixação, a escalada, chegando a escalar arranhásseis com mais de 20 andares, sem nenhum aparato de segurança. Depois dessa legitimidade no movimento, passou a defender a causa dos jovens periféricos da metrópole, tornando-se líder e espelho para aqueles que desejam sair da invisibilidade social.

Informações e imagens: Flickr de Cripta Djan