Por Bruno Leonel

Uma percussão cheia de ‘ginga’ aliada a instrumentos de corda, junto de várias camadas eletrônicas que até deixam dúvidas sobre o número de pessoas que está tocando… O resultado é uma verdadeira parede de sons. Ao vivo, a banda tem apenas três músicos, mas é impossível não ficar em dúvida se o que estamos ouvindo não é obra de uma fanfarra inteira.

Assim é o som do músico paulistano Luciano Nakata Albuquerque (Curumin) que mistura elementos de reggae, dub, rap e outras vertentes. Possuidor de uma veia eclética, o cantor – Que também é baterista e ‘sampleador’ durante o show – Chama a atenção, desde 2005, tanto pela originalidade mostrada em seus discos autorais, como também pela colaboração como músico de apoio de outros artistas (Paula Lima, Arnaldo Antunes, Vanessa da Matta e outros).

Acho que entre abril e junho devemos nos reunir para trabalhar em mais algumas, talvez com alguma previsão de lançamento para o ano que vem... (Curumim sobre o próximo trabalho) - Foto: Divulgação/Rafael Kent
“Até junho devemos nos reunir para trabalhar em mais faixas, com alguma previsão de lançamento para 2017” (Curumin sobre o próximo disco) – Foto: Divulgação/Rafael Kent

Divulgando seu disco mais recente, ‘Arrocha’ (2012) – O Quarto disco de inéditas de sua carreira – O músico esteve em Londrina no último dia 13 de março, onde se apresentou durante o aniversário de 6 anos da festa Barbada, no Bar Valentino, e conversou com o RubroSom sobre o processo de criação, suas influências, além das vantagens de ser um artista independente.

Confira a conversa:

Um aspecto do teu trabalho que é muito marcante é a forma como você mistura ritmos musicais diferentes; Dub, reggae, música eletrônica…. Desde sempre você se interessou por diferentes estilos musicais?
Não sempre, quando eu era moleque já teve época em que eu gostava de Gretchen, Sidney Magal (risos) bom, eu passei por muitas fases, mas, acho que agora, apesar das várias vertentes, tem uma coisa que é mais específica pra mim que é a música negra ou as coisas que vêm dela… Então como baterista eu gosto das coisas com ritmo, do ‘swingado’ dançante, tudo isso me interessa. Esses estilos que você falou, reggae, soul, rap, boa parte da música eletrônica, isso vem tudo dessa área…

Você falou em uma entrevista que, desde pequeno, o seu irmão foi um cara que te influenciou muito, ele sempre te mostrava discos… O que você ouviu na época que te fez querer tocar e fazer sua própria música?
Foi ele quem me apresentou Stevie Wonder né? Depois disso foi meio que um clique sabe? Comecei a ouvir muito o Wonder, depois daquilo eu saquei o caminho que eu queria seguir, ele foi o artista principal, lembro até hoje quando ele chegou em casa com o disco Innervisions (Tamla) de 1973. Eu conheci o cantor porque ele fez muito sucesso com ‘I Just Called To Say I Love You’ (1984), mas não tinha uma excelente impressão dele, apesar de ser boa era muito pop, tocou muito no rádio então ah… Nem gostava tanto. Mas, quando ele chegou com o Innervisions, pô, achei louca a capa e quando ouvi deu uma mudança de chaves na cabeça… (risos). Na escola eu já fazia algumas músicas de brincadeira, sempre brinquei com isso.

E hoje em dia, o que você tem ouvido de artistas?
Tava até comentando outro dia, tem muita coisa legal de som hoje ligada a gênero, vindo desse pessoal ligado á movimentos trans, gays… Minha mulher tem feito muita pesquisa nesse sentido, tenho acompanhado e vejo muita coisa legal, tem um frescor interessante ai. Além disso tem a Ava Rocha (Filha do cineasta Glauber Rocha) gosto muito do rapper Kendrick Lammar, cada vez aparece mais música boa…

Você é um músico que se destacou tanto no trabalho autoral como também tocando com outros músicos – Essa coisa de circular nos dois meios acrescenta mais ao trabalho?
Acrescenta muito…. Principalmente porque nessa estrada da vida eu sempre toquei com gente muito legal. Ir pra outros lugares, tentar entender outras ideias é sempre muito importante, muito legal.

Seu disco mais recente ‘Arrocha’ (2012) foi gravado em uma produção feita em casa, sem um estúdio enorme, pagando por hora. Como foi experimentar com essa forma?
Foi bem gostoso…. Isso ocorreu bem na época que minha esposa estava grávida, a casa estava em um clima bem legal e, havia uma paz mesmo em fazer ali. Tinha uma atmosfera de se sentir bem, havia um clima de trabalho ótimo, todo mundo fazendo o que gostava, feliz em estar fazendo, empolgado em estar experimentando sons… Estar em casa dá muito mais margem para testar coisas também, no estúdio é sempre mais ‘certeiro’, você não tem muito espaço para elucubrar e nem tentar e errar, tem que acertar mais. Em casa eu podia errar (risos).

O ‘Arrocha’ ficou mais eletrônico em comparação aos discos anteriores, tem mais samples (Sons gravados)… Foi também um resultado da forma de gravação?
Foi sim…. Uma coisa puxou a outra. Havia também o interesse meu, pessoal, pela programação e, na época, também pelo Hip-hop, todo o Hip-hop experimental que vinha ocorrendo, foi todo esse casamento de tentar pesquisar e fazer em um baixo custo. A gravação foi rápida, menos de três meses, o que demorou foi mais o processo de arte final, fechar a capa e o resto.

Hoje no Brasil, qual você acha que é a maior vantagem e a desvantagem em ser um artista independente?
Olha, a primeira vantagem é você não responder sua música para ninguém, quando tinha uma gravadora você precisava responder para o dono do investimento, ele precisava replicar aquele dinheiro que entrou, não tinha uma visão muito musical, a visão era muito ‘Isso vai vender ou isso não vai’, e a gente não tem essa preocupação. Essa conquista é maravilhosa, por outro lado, tem todo o trabalho que é ser você mesmo S/A. Você tem que estar presente em todas as etapas do processo, não dá para ficar só focado só criando…. Quer dizer, para alguns dá né? Para os gênios rola (risos) mas para mim, ainda tenho que ralar um pouco e correr atrás.

Você teve um contato com o selo Quannum Projects (EUA) que ajudou o seu trabalho a ter uma projeção fora do Brasil, você teve contato com o Chief Xcel do Blackalicious (Dupla de rap dos EUA) – Como é que foi a recepção do seu trabalho lá fora? O pessoal viu seu som como algo muito exótico?
Eles tem um mercado que se auto consome muito, principalmente, em relação à cultura americana (Que foi onde fui mais com o Blackalicious) a cultura nos E.U.A sempre foi muito mais de exportar do que de importar coisas… O que eles importavam era com essa ideia de música exótica, acabamos entrando um pouco com essa categoria, mas, acho que hoje mudou um pouco mais. Na época (por volta de 2005), isso era mais restrito, mas assim, foi bom do mesmo jeito… A gente percorreu aí um trilho legal, passaram pra gente muita coisa do hip-hop, fizemos vários shows, foi uma fase muito importante pra gente. Por enquanto não temos projetos de ir pra fora. Ser independente tem isso, de ser mais difícil…

E o próximo disco? Já estão trabalhando em algum material?
Estamos pensando sim, temos já algumas músicas novas feitas. Acho que entre abril e junho devemos nos reunir para trabalhar em mais algumas, talvez com alguma previsão de lançamento para o ano que vem… Esse ano ainda é todo ‘cagado’ né? (risos), tem olimpíadas, eleição e tudo… A gente nem começou essa segunda parte ainda, não precisa correr, iremos fazer no prazo em que for, para fazer bem feito.

Qual sua opinião sobre essa coisa de “música livre”? A coisa do compartilhamento gratuito, isso ajuda a circular mais? Ou prejudica o artista?
Isso é meio inevitável né? E é uma mudança da economia do mercado de música…. Eu não sei, acho que é importante o artista receber pela execução do trabalho dele. Mas hoje em dia a tecnologia permitiu tanta velocidade de informação que, se você burocratizar o acesso para as pessoas você sai perdendo, então, não tem muito para onde ir. O Mp3 é um formato ótimo, me possibilitou conhecer muita coisa que eu tinha dificuldade de pesquisar, mas, como artista eu sei que o problema é esse, de gastar dinheiro pra gravar algo, tem todo um custo emocional para produzir (Embora tenha pouco retorno) …. Mas a gente não deixa de trabalhar também, isso ajuda as pessoas a conhecerem mais e de repente viajar mais com o show.