Por Bruno Leonel

Mesmo em tempos de crise financeira, e de instabilidade política, pelo menos em Londrina a criatividade e a produção cultural parecem estar atualmente em uma de suas melhores fases em anos. Não apenas aparecem a todo momento novos projetos (Em áreas diversas como cinema, teatro e artes) como também, cada vez mais artistas, pouco a pouco, tem conseguido espaço e recursos para viabilizar novos trabalhos, sem grandes patrocinadores, contando muitas vezes com o apoio do próprio público.

Eduardo Bueno, Thiago Galleli e Ronaldo Andrade - Busker Denim lançou o primeiro disco com oito faixas - Foto: Divulgação.
Eduardo Bueno, Thiago Galleli e Ronaldo Andrade – Busker Denim lançou o primeiro disco com oito faixas – Foto: Divulgação.

A popularização das redes sociais e de ferramentas como as plataformas de crowdfunding, aos poucos, ajudam a criar novas dinâmicas no processo todo, descentralizado um pouco a obtenção de recursos, e ajudado nomes nem tão conhecidos a viabilizar filmes, exposições e até discos que trazem toda uma renovação para o circuito.

Exemplos disso não faltam; Há algumas semanas, o Montauk viabilizou a gravação de seu EP utilizando uma plataforma de financiamento coletivo, e mais recentemente o trio de rock/blues Busker Denim lançou em Londrina seu primeiro disco de estúdio, custeado inteiramente através de um esquema de financiamento coletivo. Curiosamente, as duas bandas iniciaram campanhas de financiamento coletivo na mesma data e, no caso do Busker Denim, conseguiram fechar a conta há poucos dias do fim do prazo. “No começo mesmo, passada uma semana, não tínhamos arrecadado nada… Pensamos que não iria dar certo” conta o baterista Ronaldo Andrade. Como a arte (E a música) são uma verdadeira caixa de surpresas, durante a campanha, boas luzes acabaram clareando o caminho do competente trio e permitindo que a meta fosse alcançada. “Foi expressivo sim, foi um medo que a gente tinha na verdade de não conseguir esse dinheiro, mas, deu certo… Nos 45 do segundo tempo! O projeto consistia em gravar o primeiro cd, fazer um clipe e o show de lançamento que era hoje” contou ao RubroSom o baixista Eduardo Ribeiro Bueno Neto. Completa o time o vocalista/guitarrista Thiago Galleli, principal compositor da banda.

Comentando o êxito do projeto, e poucas horas antes de subir ao palco para o show de lançamento (No Circo Funcart em Londrina) o trio conversou com a reportagem do RubroSom, contou um pouco sobre os bastidores do projeto, além de alguns aprendizados adquiridos na trajetória do trio fundado em 2013. Confira:


Pra começar uma clássica, como foi o início ai da banda?
Eduardo – A banda começou em outubro de 2013, foi quando fizemos nosso primeiro show no Estação Café Brasil, aqui em Londrina. Começou quando o vocalista havia voltado de uma viagem à Europa, aí ele me convidou para tocar um blues… Na noite, acabamos conhecendo o Ronaldo e foi quando começou essa ‘empreitada’. De início tocávamos mais covers de Steve Ray Vaughan e Jimi Hendrix (referências que a gente leva até hoje).

Thiago – Quando viajei, senti outros ares na europa… Vi muita gente tocando na rua, tinha coisas bem ‘cruas’ mesmo e acabei vendo muita verdade naquilo. Esses músicos de rua (Origem da expressão ‘busker’) me fizeram ter a ideia. Conheci um guitarrista muito bom lá, chamado Rory Gallagher, gostei muito dele, foi uma descoberta incrível… Não é tão conhecido no Brasil, mas é famoso em várias partes do mundo.

Eduardo – A partir disso fomos colocando algumas músicas nossas no meio do repertório, era legal colocar algumas surpresas no set… Começamos e amadurecer mais nas músicas e fazer nossa própria música. Com o tempo pensamos em realizar o projeto pelo catarse para financiar um disco completo. Fizemos esse projeto para arrecadar dinheiro pelo site (A meta era conseguir R$ 10 mil) e chegamos em R$ 10.488 no período de dois meses, o dinheiro foi totalmente lançado por fãs, amigos e família…

Antes de fazer o projeto pela plataforma, vocês já haviam feito um trabalho de shows, tocando na noite… Para uma banda, com uma história tão recente, ter conseguido essa grana, é algo bem importante eu imagino?
Eduardo –
Foi expressivo sim, foi um medo que a gente tinha na verdade de não conseguir esse dinheiro, mas, deu certo… Nos 45 do segundo tempo (O valor foi fechado no último dia)… Sem dinheiro nenhum nosso. O projeto consistia em gravar o primeiro cd, fazer um clipe e o show de lançamento (Ocorrido no sábado 07/05).

Ronaldo – A gente fez todo um programa de divulgação do catarse, em redes sociais principalmente, a gente gravava vídeos da banda falando sobre o projeto. Enviávamos o link para o pessoal, mandávamos mensagem para os amigos, falávamos disso durante os shows… Então, foram dois meses de divulgação muito forte, para fazer com que todo mundo conhecesse esse tipo de financiamento.

Eduardo – Tem um ponto muito importante da banda, e que influenciou a querer fazer o catarse, que foi o apoio do músico Luke de Held, ele é muito envolvido na cena, muito expressivo aqui na região… Ele viu um vídeo nosso, gostou pra caramba, começou a compartilhar. Ele e o músico Marcelo Sapão também, começaram a divulgar e deu um ‘gás’ no projeto também, ai entramos no circuito mesmo, tocamos no Menina Bar, ai já gerou um interesse pra fazer o catarse…

Eduardo – Teve até uma coincidência, nós somos amigos do pessoal da montauk, que também fez uma campanha de financiamento coletivo para fazer um EP recentemente. Nunca havíamos falando sobre o financiamento coletivo e acabamos lançando as duas campanhas no mesmo dia, eles para finalizar a gravação do EP e nós para fazer o projeto completo.

E a experiência em estúdio? As músicas chegaram prontas no estúdio ou foram fazendo muita coisa durante a gravação?
Thiago
– Eu e o Marco Aurélio (Produtor do estúdio ‘Toque Grave”) tivemos alguns ‘inisghts’ no meio da gravação e, assim como no blues, gosto de fazer tudo sem ficar pensando ou fazendo ‘projetos’ nesse sentido. Gosto de ver e ouvir, e aí seguir aquela linha, se eu to gostando do som eu continuo o que estou fazendo. Utilizamos algumas técnicas de microfonação, combinação de amplificadores… Fomos mais para este lado na gravação.

Eduardo – Quando batemos a meta do projeto, começamos a ensaiar com metrônimo e deixar tudo bem na linha… Ficamos o mês de dezembro inteiro fazendo esse tipo de ensaio. Ai, a partir de janeiro que a gente começou de fato a fazer a gravação em estúdio.

Eduardo – O processo de gravar tudo demorou um pouco mais de um mês, todo mundo tem um trabalho além da banda, ai a gente sempre tentava encaixar, ficava à noite gravando, ou separava um dia inteiro para gravar. Eu mesmo, foram várias noites testando e gravando…

Ronaldo – Fizemos uma guia, passo a passo, de cada instrumento para deixar tudo em ordem… Em janeiro foram feitas as guias, ai a gravação rolou até o mês de março. Eu tive férias no meu trabalho, e nos últimos dois dias desse período eu gravei a bateria, senão, não teria mais tempo depois disso. Foram registradas oito faixas em dois dias (Risos)… É trabalhoso, mas deu certo! Ainda bem…

Eduardo – Como as músicas já estava muito ensaiadas e preparadas, no metrônomo e já sabíamos o que ia ser feito, já facilitou o processo, senão teria levado fácil umas duas semanas só a bateria…

Como é o processo de criação de vocês dentro da banda? É mais individual o processo?
Thiago – Acho que a inspiração vem mais do sentimento mesmo, tem muito da música africana também, que é o balanço, tem uma certa ‘pulsação’ no som. Se você pensar a levada remete muito ao som da batida do coração… É assim que eu penso. Uso muito temas que estão acontecendo na minha vida, ou, na vida de alguém. Por exemplo, não apenas amor, mas algo mal resolvido… Temos a música ‘I had a breakdown’ que fala de um sentimento de uma ‘parada para pensar’ na vida, da necessidade de fazer algo diferente… Me inspiro muito em Steve Ray vaughan, Jimi Hendrix, gosto muito de um músico americano chamado Jeff Buckley, não é blues, mas vejo que é uma música de muito sentimento, é bem intenso. Buddy guy, Muddy Waters, vários caras da raíz.

Eduardo – O Thiago trás a ideia pré formada, ele traz uma progressão de acordes e trabalhamos isso… Normalmente mudamos bastante coisa. Chega até a mudar a letra em alguns casos, e ai, ensaiamos bastante pra fechar uma música. Leva bastante tempo…

O trio 'Busker Denim' horas antes do show de lançamento no último sábado (07) - Foto: Bruno Leonel/RubroSom
O trio ‘Busker Denim’ horas antes do show de lançamento no último sábado (07) – Foto: Bruno Leonel/RubroSom

E da parte das performances de cada um? Vocês chegaram e gravaram tudo ou houve tempo para experimentar e explorar jeitos diferentes de gravar em estúdio?
Eduardo – O Ronaldo mesmo, gravou a bateria de algumas músicas como ‘voodoo child’ (única cover registrada) com uma caixa que dá um som mais pesado… ‘Ain’t no cry’, que é outra música, usou um prato diferente que teria o som ideal…

Ronaldo – É como um ‘china’, é um prato muito ruim e velho, mas que, eu adoro o som dele… E ficou perfeito naquela música. A gente entrou com elas 100% no estúdio, mas, na gravação acontecem coisas que fogem do nosso controle, aí a gente tem que mudar, adaptar e isso foi produtivo, isso deixou a música melhor…

Eduardo – A gente tocando ‘na nossa cabeça’ tava pronta, mas, não tinha nenhum registro das mesmas até então. Quanto as afinações fizemos tudo em Eb (Mi bemol, meio tom abaixo da afinação padrão na guitarra e baixo). Houve também algumas participações especiais contamos com um tecladista contratado… Além do Luke de Held que participou. Contamos também com o cantor Zé Mário na voz, e o Gonzalo Araya, (Gaitista chileno) que é excepcional, um dos grandes nomes mundiais na gaita. Ele estava em uma mesa de bar com o thiago e o luke e acabou rolando a oportunidade de gravar, ele pegou as coisas no hotel e participou. O disco foi finalizado em maio, ai preparamos todo o terreno para mandar pra agregador de independência, colocar no spotify, itunes, isso tudo leva um tempo… Foi feito todo o trabalho por trás e o disco foi lançado no dia 23 de Abril.

Vai ser feita alguma edição física do disco?
Eduardo –
Foram feitas 83 caixas personalizadas do cd, que foram entregues para quem contribuiu no catarce, ai além disso, físicos, alguns discos foram vendidos no show de lançamento, depois, de contato com a gente mesmo a pessoa pode comprar com a gente…

Ronaldo – O disco está em outras redes também, spotify, deezer, itunes… Ele ainda não está no youtube porque a gente vai deixar o clipe no youtube, e ainda colocar no soundcloud depois.

busker live

Vocês falaram do certo receio em lançar o disco por crowdfunding… Devido a experiência de vocês, há alguma dica que vocês dariam pra bandas que pensam em arriscar pelo mesma ferramenta?

Thiago – Olha, pela minha experiência, acho importante ter alguém na banda que entenda muito de mídias sociais, igual o Eduardo, essa pessoa precisa meio que liderar o processo todo. Não precisa ser o líder em tudo, mas, esse é o grande segredo. Cartaz funciona, mas, essa coisa de mídias é importante, pegamos forte nisso e deu certo, sempre é importante inovar também… Se você seguir muito uma linha só, você será só mais um.

Eduardo – Claro! A gente aprendeu demais, foi uma experiência muito boa… A gente leu muito sobre a ferramenta, sobre a medida. A gente começou a se preparar uns quatro meses antes de lançar, para, fazer toda a preparação… Não pode pular isso! Tem que preparar desde o dia a dia da campanha, são 60 dias… Tem que saber que vídeo irá sair em cada data, não pode ter atraso nisso e, principalmente, acho que erramos um pouco nisso, faltou uma base de fãs maiores… Tivemos muita dificuldade em arrecadar o dinheiro – tanto que apenas deu certo nos últimos momentos – foram surpresas que aconteceram que permitiram que conseguíssemos fechar a meta.

Ronaldo – Poderia não ter dado certo, no começo mesmo, em uma semana a campanha ainda estava zerada… Pensamos que não iria dar certo.

Eduardo – Tem uma projeção sobre isso, a ferramenta dá uma estatística… Se você chega num dia x sem uma porcentagem do valor total, você não consegue terminar. Isso por causa da percepção das pessoas quando entram na página! O que deu um gás pra gente entrar, no raio certo, foi um amigo nosso que de surpresa deu uma grana a mais, ele sozinho ajudou com R$ 1 mil (Risos).

Agora com o disco gravado, quais são os próximos passos? Circular mais com a banda, para fora da cidade talvez?
Eduardo –
Sim! A gente tem a programação de fazer o ‘Busker tour’ (risos), a linha é a seguinte, a gente ta vendendo cd, camiseta, cerveja da banda… Tudo pra financiar a nossa turnê. No segundo semestre ela deve passar pelo sul/sudeste do país (Florianópolis até Taubaté), e ai, em 2017, pensamos em descobrir novos ares…

Thiago – A gente pensa também em, mais pra frente, fazer mais músicas próprias, e algumas releitura, só que aí, o projeto poderia até partir para uma linha mais agressiva, mais ‘hard’ do que temos feito até agora… Algo diferente, mais forte do que temos hoje no cd. Já temos mais algumas músicas novas ai, além das que foram registradas no disco.

Ronaldo – Argentina, Paraguai… Tem festivais de blues e jazz que tem no Brasil inteiro, e por aí vai.


Informações
Site oficial da banda: http://www.buskerdenim.com/