Por Bruno Leonel

Um grupo de estudantes que se uniu pela afinidade e pelo objetivo de desenvolver projetos jornalísticos com um olhar oposto ao que a mídia convencional muitas vezes apresenta. Realizar registros, contar histórias e mostrar um lado da sociedade pouco destacado pela grande massa são algumas das atividades do coletivo Jornalismo Periférico de Londrina.

Desde 2014 o grupo produz vídeos, fotos e reportagens sempre com este mote. No Facebook do coletivo, vários perfis de moradores de rua e também histórias de figuras de Londrina (E as vezes também de outras cidades) mostram um olhar mais próximo e sensível que permeia as produções do grupo. “Nossa meta principal é fazer o J.P chegar com essas informações em todos os lugares onde as pessoas possam se reconhecer ou também, que essas histórias possam ser reproduzidas para inspirar outras pessoas também”, conta Gabriel Siqueira Lopes, um dos integrantes do ‘quinteto’ que também conta com os estudantes Bruno Amaral, Ariádne Mussato, Juliana Pereira e André Costa Branco.

No ano de 2015, o grupo visitou o Distrito do Capão Redondo em São Paulo, na região sudoeste do município, com a ideia de filmar um documentário mostrando a efervescência cultural do local. O resultado foi o filme ‘Meu nome é Capão’ registrado durante um dia inteiro no mês de agosto.

Grafite em rua próxima à entrada do Capão Redondo - Foto: Jornalismo Periférico
Grafite em rua próxima à entrada do Capão Redondo – Foto: Jornalismo Periférico

O bairro com uma população de mais de 260 mil habitantes (Dados de 2010), é notável pela intensa proliferação de atividades culturais – com grupos musicais e também coletivos ligados à dança e a Capoeira – No entanto, a escassez de políticas públicas, ou ainda, a imagem estereotipada ligada à violência no local, muitas vezes, ofuscam tal aspecto do bairro.

Rua capão
Vista geral de rua do Capão – Foto: Jornalismo Periférico

Com a ideia de trazer a tona outro olhar sobre a região, e também influenciados por algumas figuras notáveis que de lá vieram (Como o escritor Ferréz, os rappers Levi de Souza e também Mano Brown)o grupo passou um dia todo captando imagens e entrevistando pessoas no local. Desde professoras, artistas e também moradores mais antigos, são vários os olhares sobre a movimentação do local. A narrativa final é quase como um mosaico, que parte por parte, compõem um grande emaranhado de ideias e impressões. Em suas três exibições realizadas em Londrina (Somando mais uma realizada no próprio Capão) o filme tem rendido comentários positivos ao grupo.

A fim de saber mais sobre a ideia do documentário e o trabalho do coletivo, o Rubrosom conversou com o grupo:

O Capão Redondo foi a primeira ideia de local pra produzir o documentário?
Gabriel – Lá foi a primeira ideia sim… Pra mim, o local é historicamente uma das duas grandes comunidades famosas do Brasil (Sendo a Rocinha a outra), locais que todo mundo conhece. São Paulo tem o Capão… Você vai ter outros lugares, mas, pra nós lá é uma referência, desde muito tempo sempre ouvia histórias de lá. Rocinha algum dia seria legal também (Risos), lá é um local também com bastante história…

Quanto tempo de gravação vocês fizeram por lá?
Gabriel – Bastante coisa… Saindo da estação do capão, já encontramos a Vila Fundão, na entrada já tem o grafite de um artista chamado Kobra (Que já colaborou com os Racionais Mc’s) ele faz um trabalho muito bom, naquele trecho ali já começamos a gravar, depois rodamos durante muito tempo. Chegamos lá por volta das 9h e começamos a gravar já umas 10 da manhã… A gravação terminou por volta das 18h… Foram quase umas 7 horas de material bruto.

Desse tempo para chegar em um documentário de 20 min, imagino que vocês tenham tido que enxugar muita coisa…
Gabriel – A gente tinha bastante material, mas, o legal foi reunir as melhores falas e fazer um quebra-cabeça com isso realmente. Você tinha o enfoque na efervescência cultural e ai eu acho que chegou em um ponto que está no ótimo… Para não ficar forçado sabe? Não teve nenhuma enrolação, nenhuma fala que repetiu muito, esses 20 minutos rendeu bem, é o suficiente!
Bruno – A gente filmou muita coisa no mesmo lugar, as falas que a gente selecionou foram bem objetivas, deu pra todo mundo expor ideias…

Bastidores da filmagem do documentário - Foto: Jornalismo Periférico
Bastidores da filmagem do documentário – Foto: Jornalismo Periférico

O pessoal que conversa com vocês no filme, falou numa boa? Houve algum tipo de resistência?
Gabriel – Não, todo mundo falou de peito aberto, foi bem legal! As diretoras da escola (Que aparecem no filme) estavam cuidando de outros eventos, e ainda, separaram um tempo para falar com a gente. Os professores de capoeira que estavam na aula, também falaram com a gente, foi bem interessante…

O que mais chamou a atenção de cada um durante a produção?
Gabriel – Duas estações antes da do Capão tem a ponte citada na música dos Racionais (Da ponte pra cá) isso já me chamou muito a atenção, comecei a me empolgar, ‘Nossa, já passei da ponte’ (Risos) ai pra entrar já tem o grafite que eu havia mencionado…. O que mais me marcou foi a Capoeira também, eu tenho uma história com a modalidade, eu já treinei também. Ver aquilo ao vivo, o valor que a comunidade dá, é muito marcante.

Bruno – O que mais me marcou, foi o fato de conhecer o Capão, estar lá já foi uma realização muito legal. Desde pequeno mesmo, eu sempre quis conhecer o lugar… Não tinha internet, nem imagens mesmo do bairro eu cheguei a ver, o fato de poder ir até lá, caminhar pelo local, foi bem marcante, a coisa de conhecer as vielas….

André – Eu lembro muito da arquitetura do local, São Paulo já é uma cidade impossível em vários aspectos, e o Capão também…. Você vê uma comunidade inteira levantada naqueles morros, é muito impressionante isso. Dá pra sentir bem melhor o lugar quando você está por lá. Você mensura bem melhor quando está por lá. Os personagens me marcaram muito também. Tanto os que apareceram no doc, como também, os que você troca poucas frases…. O Gabriel e o Bruno foram fazer outras entrevistas, e eu fiquei gravando imagens da capoeira. Logo que eu terminei, vi um garoto sozinho por lá, super tímido sentado e comecei a conversar muito com ele, foi um amor de pessoa. Ele não aparece no filme, mas, fizemos algumas fotos.

E esse material todo que foi gravado, não pensam em fazer nada com os registros?
Não, a gente ta gravando e fazendo bem melhor agora…. (Gabriel) Eu particularmente não imagino, o que pode render mais é talvez voltar lá e gravarmos outras coisas, produzirmos outros materiais. O ‘Meu nome é Capão’ foi registrado em um momento específico, no qual a edição foi bem rápida também…. Passou essa fase.

André – estamos hoje bem melhor em várias coisas, até no equipamento…

Juliana – Nossa, você vê os takes de hoje e esse doc, a gente melhorou muito…

Bruno – eu acho que alguns dos piores takes da minha vida estão neste documentário (risos), eu nunca havia filmado uma entrevista antes até então.
Gabriel – A gente fez o melhor que podíamos ter feito naquela época. Acho que não tem que ficar lembrando também. Todo mundo deu o máximo, hoje, seja melhor ou pior, seria outro documentário, seriam outras histórias, eu não gostaria de mexer em nada neste documentário porque eu sei que, naquele momento, foi o que eu pude e todo mundo pode fazer de melhor. Mudar ou alterar algo tiraria um pouco a essência.

Bruno – Nosso canal do youtube foi lançado em junho (2015) e a gente fez este documentário só dois meses depois…. Isso é uma coisa marcante para o Jornalismo Periférico. Essa coisa de ver o documentário e, talvez, comparar com as produções futuras é mais para ter essa referência; olha o quando a gente tá melhor, olha o quanto a gente cresceu… Nós evoluímos muito neste tempo. Usar as imagens pra fazer outro, acho que não. É muito mais desafiador ir até lá e produzir outra coisa.

O Jornalismo Periférico; Bruno Amaral, Ariádne Mussato, Gabriel Siqueira, Juliana Pereira e André Costa - Foto: Pedro Hoam
O Jornalismo Periférico; Bruno Amaral, Ariádne Mussato, Gabriel Siqueira, Juliana Pereira e André Costa – Foto: Pedro Hoam

E sobre a função do Jornalismo Periférico, qual é?
Bruno – Nossa meta principal é fazer ele chegar com essas informações em todos os lugares onde as pessoas possam se reconhecer ou também, essas histórias possam ser reproduzidas para inspirar outras pessoas também. Essa questão dos perfis de morador de rua (Que o grupo faz no facebook), muita gente vem falar pra mim que não conseguia antes falar com um morador de rua depois de começar a ler as histórias que viu nesta página. Então, o objetivo é mais fazer chegar, conseguimos pautar a cidade com um documentário lá de São Paulo…. Acho que é isso.

Gabriel – Uma menina contou uma parte do capão que não foi retratada, um pouco da violência – Ela tinha 16 anos e havia sido vítima de violência. Enfrentou umas situações bem terríveis… Mas hoje ela falou disso, superou! A ideia era trazer a tona outra coisa, mostrar como, mesmo com todos os problemas, no caso do Capão mesmo, o bairro consegue sobreviver e fomentar bastante cultura né?

Juliana – Dar um novo enfoque, mostras coisas que as pessoas não estão acostumadas a ver….

Mostrando esse doc aqui, você falou da efervescência, isso pode refletir para o pessoal que enfrenta as dificuldades daqui?
Eu acho que sim, dificuldade de grana, passar fome, é meio que universal… É verdade, quando o problema é periferia, o retrato é o mesmo, as pessoas vão ter o mesmo receio, receio das pessoas, a mídia convencional tem aquele olhar já restrito, moradores de lá quando procuram emprego não colocam onde moram, citam o endereço de um amigo… As limitações são as mesmas.