Por Bruno Leonel

Uma escrita fluida, que conduz uma peça teatral dividida em cinco atos, e que cruza mitologia e história para retratar uma representação da formação do Brasil a partir das dores e prazeres do samba. É com esse mote que o livro-CD “Samba de uma Noite de Verão”, escrito pelo jornalista e dramaturgo Renato Forin Jr. será lançado nesta sexta-feira (16) em Londrina. A obra é uma reescritura do texto mais popular e lírico do dramaturgo inglês William Shakespeare ‘Sonho de Uma Noite de Verão’. Com sotaque bem brasileiro. Índios, negros, mestiços e brancos cruzam-se, separam-se, confundem-se, interagem numa dança de ritmos que acaba dando samba.

Dramaturgo Renato Forin Jr. lança Samba de uma Noite de Verão nesta sexta
“Samba de Uma Noite de Verão” é uma peça musical em cinco atos, em que Renato Forin Jr (foto). mergulha na cultura brasileira e nas matrizes que a formaram – Foto: Marika Sawaguti

O lançamento acontece às 19 horas, na Secretaria Municipal de Cultura (Solário Carlos Cascaldi), acompanhado de um pocket-show com participação de músicos convidados. Com patrocínio do Programa Municipal de Incentivo à Cultura (Promic), o livro-CD terá parte da tiragem distribuída gratuitamente em escolas públicas estaduais de Londrina e em outras instituições ligadas à educação e cultura. O objetivo é incentivar a leitura da dramaturgia e a audição da música popular em adolescentes e jovens. “As interfaces com a cultura popular brasileira, sobretudo o samba, seriam um outro motivo para essa fluência lírica. É característica da música popular transmitir pensamentos altamente elaborados – e até complexos – em formas leves e acessíveis… O fato é que o livro-CD tem esta vocação. Pensei na obra como uma possível incentivadora de leitura em jovens e adolescentes”, contou o autor durante entrevista ao Rubrosom. (Veja a seguir)

Publicado pela Kan Editora com coordenação editorial de Marcos Losnak e produção de Danieli Pereira, “Samba de Uma Noite de Verão” é uma peça musical em cinco atos, em que Renato Forin Jr. mergulha na cultura brasileira e nas matrizes que a formaram, para reescrever uma história na qual os deuses gregos, duendes e fadas de Shakespeare encontram paralelo em criaturas folclóricas tipicamente brasileiras e nos orixás da mitologia africana. “A língua portuguesa, adornada por ecos tupis, nagôs, europeus, chama-se brasileira, escorre da boca em versos prosaicos, em falas musicais. No carnaval, no dia santo. Na santeria que rima Jesus de Nazaré com os tambores do Candomblé. Um país ideal, tantas vezes (e quase sempre) irreconhecível nos abismos cotidianos da violência urbana e dos descalabros políticos. Mas que está aquém e além do presente, gestando e reproduzindo a nação que lega ao mundo a visionária miscigenação”, escreve o autor no prefácio.

Renato Forin Jr. ressalta que a peça lança, no espaço infindo entre o fantástico e o real, uma possibilidade de interpretação da nossa identidade. A trama se passa na chamada Vila de Vera Cruz e em um bosque dos orixás, adjacente ao humilde e alegre cortiço da periferia, cenário propício para o surgimento de paixões e desencontros. Na Vila, um grupo de trabalhadores (integrantes de um projeto social de teatro) organiza uma apresentação da lenda indígena Tamba-Tajá para encenar na festa do casamento do poderoso Teseu com a francesa Hipólita. Enquanto isso, dois jovens casais da comunidade vivem os conflitos do amor proibido. A trama atinge seu ápice quando eles fogem pela floresta, onde estão os orixás Oxum (deusa das águas doces) e Ossaim (senhor das folhas), além de Aroni, o fiel escudeiro do deus africano, que promove repentinas paixões entre os protagonistas.

A dramaturgia foi trabalhada ao longo do ano de 2009, junto a uma das turmas da Escola Municipal de Teatro (EMT). A montagem original de “Samba de uma Noite de Verão” estreou em outubro daquele ano, no Circo Funcart, encenada por alunos da EMT, com direção de Edna Aguiar e Guilherme Kirchheim. “Guardo lembranças bonitas da primeira montagem. Foi um trabalho marcante para todo o grupo. Intimamente, “Samba de uma noite de verão” foi minha primeira experiência mais profunda nos palcos”, contou o dramaturgo.

Musicalidade – Neste musical, Renato Forin Jr. também assina as quatro composições que foram gravadas em CD pelos cantores Edna Aguiar, Gisele Silva, Joyce Cândido e Tonho Costa e pelos músicos Rafael Fuca e Duda de Souza, com direção musical de Sara Delallo e produção de áudio de Luciano Galbiati. Trechos de canções de outros compositores, como Noel Rosa, Vinicius de Moraes, Elton Medeiros, Baden Powell, Dorival Caymmi, Jorge Benjor, pontuam a narrativa. Ao final do livro, notas trazem dados sobre vida e obra dos autores brasileiros citados, acentuando o caráter paradidático da publicação. “Não entendo de notação e teoria musical, minha elaboração é intuitiva e minha atenção volta-se sobretudo para a melodia que a poesia evoca. Em suma, cantei para Sara estas canções – toda a tradução musical daí em diante foi dela, num trabalho com os músicos e, depois, com os cantores”, explicou Renato Forin sobre o processo de concepção do cd que acompanha o livro. Sobre o conceito todo da obra, assim como, algumas das inspirações para o trabalho, conversamos com Renato Forin Jr. que falou mais sobre o processo de criação de “Samba de uma Noite de Verão”, confira a conversa:


Como surgiu a ideia de cruzar as referências do samba, e da cultura brasileira, com o texto do dramaturgo britânico?
A amálgama da cultura brasileira sempre me surpreendeu e me intrigou positivamente – e tudo começou de maneira muito instintiva, ainda na infância, a partir da audição da música popular. Tudo o que o Brasil tem de mais potente passa, de alguma forma, por aí, pela mistura. Em 1823, José Bonifácio já falava que o traço unificar de um país continental como o nosso era a “amálgama”; só ela, aliás, poderia salvar-nos das sucessivas convulsões políticas. O samba é o ritmo propriamente miscigenado, o produto da decantação sonora de matrizes étnicas que se encontraram aqui por razões históricas diversas. Sobrevive no samba linhas melódicas europeias, a percussão afro, os sopros indígenas, a potência do corpo (característica das duas últimas). Quanto ao texto da peça, a ideia surgiu em 2008, quando, na Escola Municipal de Teatro, a diretora e então professora Edna Aguiar sugeriu à minha turma que lêssemos e montássemos Sonho de Uma Noite de Verão, de Shakespeare. Li a peça com a cabeça em outro lugar: via nitidamente nos deuses gregos e nos mitos fantásticos do bardo inglês alguma coisa nossa, uma semelhança incrível com o universo dos orixás do candomblé e da umbanda. Os quiproquós entre os casais ambientados originalmente em Atenas me pareciam também muito próximos dos amores tropicais. Pensei em outros elementos críticos, como a ganância dos mais ricos, a exploração imobiliária e resolvi transformar aquela cidade grega em um cortiço brasileiro. Apresentei o projeto para Edna e Guilherme Kirchheim, os diretores, que imediatamente toparam. A peça nasceu muito desse diálogo com a cena ao longo de quase um ano.

Você vê algum aspecto em comum entre essas duas culturas, aparentemente, tão distintas?
A relação que se estabelece aqui é mais entre uma brasilidade e uma potência mitopoética grega. Explico: Em “Sonho de uma noite de verão”, Shakespeare bebe na cultura da Grécia Antiga; as referências da trama são todas helênicas – tanto o cotidiano de Atenas, quanto as deidades heroicas da floresta. Sincronicamente, podemos falar da irmandade entre duas culturas cuja essência poética está diretamente ligada à oralidade, ao verso permeado de musica, à potência dionisíaca do corpo. A conversa aqui vai longe, mas só para citar um exemplo: o samba é completamente trágico (lembremos Caetano cantando “o samba é pai do prazer, o samba é filho da dor”, ou Vinicius em “pra fazer um samba com beleza / é preciso um bocado de tristeza”). Eu poderia ir além: falar, especificamente na relação entre deuses gregos e orixás, sobre a sincronicidade prevista por Jung. São deuses pagãos, que refletem as dores e as delícias da dimensão humana e isso ultrapassa tempo e espaço. Acredito muito nesta relação entre Grécia Arcaica e Brasil via África. A este propósito, aliás, vale mencionar a epígrafe que abre “Samba de uma noite de verão”: “Estes negros parecem gregos. Gregos antes da cultura grega”. A frase foi dita pelo escritor Waldo Frank a Vinicius de Moraes quando assistia a um samba em uma favela carioca. Foram as palavras de Frank que dispararam em Vinicius a inspiração para escrever “Orfeu da Conceição”.

Seu livro cruza elementos da arte e da história (A cultura do samba, literatura) com figuras imaginárias como o folclore brasileiro, orixás, deuses gregos, fadas… teve alguma preocupação em tornar (Ou adaptar) essas referências para um contexto mais acessível para os leitores do trabalho?
Diria que “Samba de uma noite de verão” chega a este objetivo, ou seja, o fato de ser extremamente acessível, leve e irreverente (ainda que toque em temas pesados em alguns momentos), sem um propósito planejado. Atribuo isso ao original de Shakespeare, que inspirou minha escritura. “Sonho…” é considerado, dentre as dramaturgias do inglês, a mais lúdica e popular. As interfaces com a cultura popular brasileira, sobretudo o samba, seriam um outro motivo para essa fluência lírica. É característica da música popular transmitir pensamentos altamente elaborados – e até complexos – em formas leves e acessíveis. José Miguel Wisnik fala sobre isso em seus textos. O fato é que o livro-CD tem esta vocação. Pensei na obra como uma possível incentivadora de leitura em jovens e adolescentes. Justamente por isso, parte da tiragem está sendo distribuída gratuitamente em escolas públicas e outras instituições culturais de Londrina. Feito que conseguimos graças ao patrocínio do PROMIC (Programa Municipal de Incentivo à Cultura).

Cd com quatro faixas acompanha o trabalho - Foto: Marika Sawaguti
Cd com quatro faixas acompanha o trabalho – Foto: Marika Sawaguti

No prefácio você cita ideias como a ‘mesquinhez terceiro-mundista’ que faz da grana o motor de uma engrenagem devastadora dos afetos, do respeito e por fim da própria arte… Para você, só a arte pode funcionar como uma resistência disso?
Não. Como você mesmo cita, incluo a arte numa sucessão de experiências humanas (o afeto, o respeito…) – e humanistas – que podem nos salvar da engrenagem das relações objetivas baseadas no capital. A experiência humana e coletiva está muito além da grana, mas vamos perdendo esta régua e compasso na vida social. Deleuze e Guattari explicam como o capitalismo cria um tipo de esquizofrenia. No prefácio, digo a frase que você cita para me referir às cenas inicial e final da peça. Elas caracterizam um ciclo: o ricaço Teseu, dono de todos os barracos da Vila de Vera Cruz, desqualifica e coíbe a alegria com que os moradores conduzem as suas vidas, porque para ele “tempo=dinheiro”, há uma lógica produtivista que quer acabar com as manifestações artísticas e com outras relações intersubjetivas que pedem tempo, calma. O Brasil, parece-me (enquanto dramaturgo desta peça), tem vocação para outras delicadezas. Chico Buarque chama-o de “o país da delicadeza perdida”. Cabe bem aqui os versos de Caetano Veloso, baseados em Maiakovski: “gente é pra brilhar / Não pra morrer de fome”.

Sobre a parte musical, como foi o processo de composição? As faixas foram sendo feitas paralelamente à escrita da peça, ou foram processos feitos em momentos diferentes?
A peça tem quatro canções autorais, além de uma série de outras referências da tradição da música brasileira. Na ocasião da montagem, em 2009, escrevi “Samba de Uma Noite de Verão”, canção homônima que fechava o espetáculo. As outras três são mais recentes, fiz em momentos diferentes após a conclusão do texto e finda a temporada do espetáculo: “Prelúdio do Dia”, “Compasso da Vila” e “Retrato d’Oxum”. A primeira já foi gravada duas vezes fora da peça, inclusive no DVD “O Bom e Velho Samba Novo”, de Joyce Cândido, lançado pela Warner Music.

Você contribuiu e opinou também na parte dos arranjos musicais? – Tem uns acordes com 7ª ali que soaram muito bem (Especialmente na faixa 3) Como foi o processo de trabalhar junto com músicos tão notáveis da cidade? (Tonho Costa, Fuca, Gisele Silva… etc)?
Quem assina a direção musical do disco é a Sara Delallo, que é uma musicista incrível, com ouvido absoluto. Não entendo de notação e teoria musical, minha elaboração é intuitiva e minha atenção volta-se sobretudo para a melodia que a poesia evoca. Em suma, cantei para Sara estas canções – toda a tradução musical daí em diante foi dela, num trabalho com os músicos e, depois, com os cantores. O produtor de áudio Luciano Galbiati também acompanhou o trabalho. A partir de então, eles me enviavam as bases e discutíamos produtivamente as melhores opções. O diálogo com os cantores sobre as intencionalidades da interpretação e as divisões também foi muito bacana. Fiquei surpreendido com a qualidade final. É um trabalho coletivo de gente apaixonada pelo que faz.

A obra, como um todo, permite muitas reflexões e interpretações sobre a formação da cultura brasileira como identidade… , No atual momento pelo qual o país passa (Cultural, histórico) você acha que essa reflexão, da própria imagem, talvez tenha sido deixada um pouco de lado?
Pelo contrário, acho que toda a nossa perplexidade atual é resultado desta eterna busca de identidade. Deparamo-nos, repentinamente, com uma crise de representação (lembremos que o lema dos movimentos de 2013, quando começou de forma mais incisiva a onda de insatisfação, era justamente “fulano não me representa” e ainda ouvimos laivos assonantes). A crise de representatividade é uma crise de identidade. A ideia de devoração, de antropofagia, ou mesmo as noções da amálgama continuam sendo a tônica quando já não mais nos reconhecemos como irmãos de pátria. Volto à primeira resposta da entrevista: José Bonifácio falou em “amálgama” como uma saída para as convulsões políticas em 1823. Talvez isso não seja passado, talvez continue representando um caminho para o nosso tempo. Mas paro por aqui, porque me sinto desabilitado a falar de questões tão complexas no olho do furacão.

A peça teve uma primeira montagem realizada em 2009, no Circo Funcart, encenada por alunos da EMT… (A Edna, que canta no cd participou da direção inclusive), após a publicação desse livro, pensa em realizar uma nova montagem do peça?
Guardo lembranças bonitas da primeira montagem. Foi um trabalho marcante para todo o grupo. Intimamente, “Samba de uma noite de verão” foi minha primeira experiência mais profunda nos palcos.  Mas ele é um texto para elenco numeroso e hoje o trabalho do meu grupo, o Agon Teatro, é mais íntimo. A publicação de um texto dramático sempre traz essa possibilidade: a sobrevivência de uma peça no tempo, a sua expansão no espaço e sua repercussão junto a outros grupos, coletivos e artistas. Digo no prefácio: “um texto teatral nunca termina.  Ele está sempre à espera de vozes e corpos que lhe deem o sopro de vida”. Que assim seja.


Ficha Técnica:
Samba de uma Noite de Verão (livro-CD)
Autor: Renato Forin Jr.
KAN Editora
R$ 35,00 (livro de capa dura+CD)
Patrocínio: Programa Municipal de Incentivo à Cultura (Promic)
Coordenação editorial: Marcos Losnak
Texto de abertura: Antônio Mariano Júnior
Texto do posfácio: Sonia Pascolati e Maria Carolina de Godoy
Produção: Danieli Pereira
Projeto gráfico: Visualitá Casa de Design
Revisão: Christina Boni
Direção musical: Sara Delallo
Produção de áudio: Luciano Galbiati
Músicos: Rafael Fuca e Duda de Souza
Cantores: Edna Aguiar, Gisele Silva, Joyce Cândido e Tonho Costa
Assessoria de imprensa: Jackeline Seglin
Apoio: Agon Teatro


SERVIÇO
Lançamento “Samba de Uma Noite de Verão” (livro-CD)

Dia 16 de dezembro (sexta-feira)
Às 19 horas
Solário Carlos Cascaldi | Secretaria Municipal de Cultura
(Praça 1º de maio, 110, 4º andar – em frente à Concha Acústica)
Com pocket-show de músicos e cantores de Londrina
Entrada gratuita.