Por Bruno Leonel

Concluindo a primeira semana de ocupações em Escolas Estaduais, realizadas em todo o Paraná, que protestam contra mudanças no ensino público – Os movimentos iniciaram por volta do último dia 10 de outubro, e até esta terça (18) atingiram a marca de 31 Colégios ocupados só em Londrina – O Colégio Estadual Professora Maria José Balzanelo Aguilera, (Região Sul), foi palco na última sexta (14) de um momento dedicado ao hip hop à cultura do rap, com a presença do Dj Diq e do Dj Marco (Marco Antônio de Souza), mais conhecido pela colaboração com o artista Criolo.

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Alunos acompanham o som do Dj Marco durante discotecagem no colégio ‘Aguilera’ na última sexta (14) – Foto: Bruno Leonel/Rubrosom.

Aproveitando a passagem por Londrina no dia, quando também tocou em um evento no Bar Valentino, Marco foi até o Aguilera onde, além de discotecar, conversou um pouco com alunos da ocupação, além de também promover uma disputa de rimas entre ‘entusiastas’ do rap presentes por lá. “Estive em Maringá na última semana, e como eu viria aqui pra Londrina, tinha um dia vago antes de tocar aqui na cidade, aproveitando essa ‘lacuna’ comentei com o pessoal da cidade que ‘Se tiver algum espaço para fazer som aí, vamos fazer’, como uma rádio comunitária, uma rádio web, qualquer coisa… Montamos o equipamento e conversamos com o pessoal, foi bem legal, o pessoal rimou também, a experiência foi bem legal. E aqui em Londrina teve este contato também… Eu já conhecia o Ed Groove (Aqui da cidade) lá de Maringá, que foi quem me falou das festas e eventos ligados ao rap aqui.”, contou o artista. O som foi todo montado por volta das 18h30 e às 19h, DJ Diq já iniciou o som ao vivo no local.

Dj Diq também participou dos trabalhos na última sexta (14) - Foto: Bruno Leonel/Rubrosom
Dj Diq também participou dos trabalhos na última sexta (14) – Foto: Bruno Leonel/Rubrosom

Nossa reportagem acompanhou um pouco da movimentação no Colégio na última sexta. Chama a atenção a organização e a limpeza do espaço. Com uma lógica quase setorizada, havia quartos divididos para meninos e meninas, espaços dedicados á produtos de limpeza e também uma cozinha onde eram guardados os mantimentos. Rotinas também foram divididas, enquanto grupos cuidavam da portaria e da ‘ronda’, outros grupos auxiliavam na separação de alimentos, assim como, na organização do espaço.

Sobre a situação das ocupações, Marco (Que mora em SP) teve uma experiência bastante rica no ano passado, as ocupações em escolas de SP, na ocasião, motivadas por protestos dos estudantes à questões como o fechamento de escolas e o ‘desmonte da educação’. “Fizemos um show em uma escola na Região Leste (Com o Criolo), junto com vários outros artistas, e de lá pra cá, eu pessoalmente, não havia comparecido em mais nenhuma ocupação. Na minha época, faltava escolas, mas elas funcionavam ta ligado? Havia greve e essas coisas, porém o negócio voltava, o que vejo hoje é que professores se manifestam e apanham da polícia sabe? A gente tá completamente andando pra trás, com tanta informação, com tanta facilidade, não é aceitável que isso aconteça. Se eu fosse adolescente agora, com certeza, eu estaria ocupando a escola… Na minha época, já pensava assim, não é todo mundo que pensa assim, mas, os alunos que pensam tem q ter essa iniciativa. O que eu posso fazer de repente, é fazer uma atividade como hoje, ai depois os alunos acabam comentando entre si, e assim, vão chamando outras pessoas, mais gente acaba vindo somar…”, contou o produtor em entrevista ao Rubrosom.

Acho que lutar para manter escola é pra isso, para melhorias. Já fui humilhado nas ruas, mas, nem por isso irei abandonar a causa... Temos que trabalhar para que as próximas gerações não passem por isso - Foto: Bruno Leonel/Rubrosom.
‘Acho que lutar para manter escola é pra isso, para melhorias. Já fui humilhado nas ruas, mas, nem por isso irei abandonar a causa… Temos que trabalhar para que as próximas gerações não passem por isso’ afirmou Dj Marco – Foto: Bruno Leonel/Rubrosom.

Inicialmente, os alunos pareciam um pouco receosos e tímidos com o som, mas aos poucos, foram se rendendo aos raps, dubs – E até canções mais pops – tocados tanto por Diq como também pelo Dj Marco. Um microfone improvisado foi montado no local como um convite para que aspirantes da rima, mostrassem também sua arte. As pickups também foram ‘abertas’ ao público, com possibilidade dos próprios alunos aprenderem usar o equipamento e aprender um pouco sobre a arte das pickups. “Você investir no exército, investir na polícia e não pagar um professor, não tem cabimento numa situação dessas… precisamos de segurança, mas tem coisa que está a mais. A gente precisa educar todas as gerações, a gente talvez não consiga superar as maiores dificuldades da nossa geração, mas, podemos trabalhar para que pessoas que venham depois, não tenham esses mesmos problemas… Por exemplo, eu vivi uma situação em SP, muitos anos, de tomar enquadro da polícia, porém, muita coisa mudou… a abordagem com a juventude negra mudou, há um diálogo maior. Já cheguei a tomar enquadro de policial que apontou a arma na direção da minha filha pequena, não todos os policiais, mas tem que saber quem você coloca pra trabalhar como policial… Muita gente que vem de uma geração 20 anos mais nova do que eu não passou por isso. Acho que lutar para manter escola é pra isso, para melhorias. Já fui humilhado nas ruas, mas, nem por isso irei abandonar a causa…”, contou Dj Marco durante a entrevista.