Por Bruno Leonel

Estreia nesta sexta (25) em Londrina, o curta-metragem “Quando o Verde Toca o Azul” dentro da programação do 18º Festival Kinoarte de Cinema, às 21h, no Cineflix do Shopping Aurora, em Londrina, no Paraná. A produção, que conta com equipe e elenco locais, é o segundo filme de Letícia Nascimento como roteirista e diretora, que estreou na direção cinematográfica com o curta “Onde o Coração Canta” (2015), vencedor do prêmio de melhor filme londrinense pelo júri popular no 17º Festival Kinoarte de Cinema, no ano passado.

Curta Quando o Verde toca o Azul estreia nesta sexta
Laura, a personagem central, é interpretada pela atriz Luciana Caminoto – Foto: Arthur Ribeiro

Com referências que vão desde Lynne Ramsay a Mallick o filme tem uma temática ligada ao emocional humano; Quando o Verde Toca o Azul apresenta a personagem Laura, 34 anos, que tem casa, marido e um bom emprego, e vive em uma rotina engessada. A partir de uma memória traumática, Laura, repentinamente, muda seu comportamento em busca de uma resposta para as questões que rodeiam os seres humanos. Laura é interpretada pela atriz Luciana Caminoto, que divide as cenas com Eduardo Lopes Touché e Edimara Alves, que também participaram do elenco do primeiro filme de Letícia, além de Alan Ferreira, Alessandra Pajolla e Juliana Monteiro.

A Árvore da Vida, do Mallick, segundo a diretora é um filme que influenciou visualmente o curta - Foto: Arthur Ribeiro
A Árvore da Vida, do Mallick, segundo a diretora é um filme que influenciou visualmente o curta – Foto: Arthur Ribeiro
As filmagens foram realizadas em maio, na cidade de Londrina. O filme tem produção de Bruno Gehring, direção de fotografia de Guilherme Gerais, direção de arte de Camila Alcantara Melara, figurino de Thaina Oliveira Gonçalves, som de Artur Ianckievicz, trilha sonora de Lucas Baptista Dias e projeto gráfico de Glauber Pessusqui. “Eu parti de uma palavra para construir este roteiro. Eu quis muito ir pra um caminho de acaso-objetivo, então tem muito de momentos específicos de vida real, que foram adaptados pro filme”, contou Letícia Nascimento em entrevista ao Rubrosom. Confira a conversa completa:

(R) Embora este seja o seu segundo curta-metragem, o texto e a ideia foram concebidos já há algum tempo certo? Como foi esse processo todo até a concepção?, muitas mudanças foram feitas na trama?
Sim. O roteiro de Quando o Verde Toca o Azul foi concebido em 2013, como parte do processo criativo do Núcleo de Dramaturgia Audiovisual do SESI/Londrina, do qual fiz parte por três anos. Na época, participei de um pitching com este roteiro e obtive um retorno muito positivo em relação a ele, inclusive com proposta de produtora para produzi-lo. Essa ideia ficou guardada por um tempo e após rodar o primeiro curta, achei que era hora de dar vida a ele e aqui estamos!

No processo eu me desafiei a partir de uma palavra, no caso REPENTINA, para construir o roteiro. Foi uma experiência muito interessante, este é um roteiro que abriu muitas portas pra mim. Para a filmagem mudei algumas coisas, o roteiro sempre muda quando vamos rodar, praticamente ganha vida.

E a preparação do elenco? Foi um processo longo até achar todos os atores?
Nós fizemos a seleção de elenco em março – divulgamos o máximo que conseguimos e testamos um número grande de atores, chegando na escolha da Luciana Caminoto para o papel principal, no Alan Ferreira e Juliana Monteiro para outros dois papeis e convidei dois atores que estavam comigo já no primeiro filme, o Eduardo Lopes Touché e a Edimara Alves, além da Alessandra Pajolla, para fecharem o elenco.

O processo de preparação foi muito extenso, quase exaustivo, mas valeu muito a pena. Eu contei com a ajuda do Marcos Savae, que também é meu assistente de direção para o trabalho de preparação. O Marcos é ator, como eu, mas ele ainda está conectado à interpretação de uma forma que eu não estou mais. Ele é incrível! Elaboramos juntos a forma de trabalho e ele trabalhou os exercícios corporais e de voz com o elenco, criando uma energia muito boa que estava presente no set. Estou muito satisfeita com as atuações, atingimos o que precisávamos neste sentido.

Seu filme tem uma carga visual e emocional fortes (Fala de lembranças, traumas) o que você citaria como influências para esse conceito todo?
Eu parti de uma palavra para construir este roteiro. Eu quis muito ir pra um caminho de acaso-objetivo, então tem muito de momentos específicos de vida real, que foram adaptados pro filme. Para construir junto com a equipe o conceito estético/visual do filme, algumas das referências foram A Árvore da Vida, do Mallick, que é um filme que me encanta por esse poder de expressar muito em pequenos elementos, teve um pouco. Teve também referências de filmes de Lynne Ramsay, que é uma diretora que eu gosto muito, de filmes de Sofia Coppola, Bresson, Cassavetes… No roteiro original, os offs da Laura seguiam uma não-linearidade, que pensando aqui pode ter como referência Virginia Woolf, mas isso eu pensando já em possibilidades adormecidas…rs E também estes offs não foram filmados. No plano musical, tem a música Blue, da Joni Mitchell que permeou parte do processo.

Do ponto de vista da direção, agora com uma equipe maior, quais foram os maiores desafios deste filme? Imagino que o processo tenha sido muito mais complexo do que no primeiro…
Eu achava que os desafios diminuiriam com mais uma experiência, mas cada set é um set, cada história é uma história e por aí vai. Como a grande maioria da equipe anterior estava comigo de novo – os dois que não estavam era por causa de trabalho – foi tranquilo este processo. A diferença é que dessa vez contamos com pessoas com mais experiência, o que é um desafio já, de administrar tudo isso, mas que foi muito enriquecedora. Aprendi muito nesse set, como no outro. Fazer filmes é um trabalho incessante de aprendizado e desapego. o filme foi filmado praticamente inteiro com câmera na mão, tem vários planos sequência e diálogos. Buscamos uma estética mais fluida que acompanhasse essa personagem mesmo. Então é um filme por si só desafiador.

Um dos maiores desafios pra mim foi que dessa vez montei a estrutura do filme sozinha – o processo de montagem mesmo – e só depois de ter feito isso contei com a ajuda do Artur Ianckievicz, que também assina o som, para os retoques finais. Eu queria muito ter essa experiência de ter todo o material ao meu dispôr para trabalhar com calma e tranquilidade e foi um longo processo, super desafiador, mas bem gratificante agora que está chegando a estreia. Todo filme vai ter desafios. Neste contamos com um dia em que choveu, por exemplo, numa cena que eu precisava de sol e nós começamos a tomar decisões, definir ou redefinir conceitos porque as coisas não podem parar. Realizar um trabalho via Promic também é um desafio… Envolve muita coisa, tem muito trabalho e responsabilidade envolvidos e um sentimento de deixar algo realmente pertinente para a nossa cultura local, assim como você tem feito com o Rubro Som. Você me entende nesse sentido!

De alguma forma, acha que o ‘Quando o verde…” pode ajudar pessoas que passam por um momento parecido como o da Laura na trama toda?
Essa lembrança da Laura, você vai ver quando assistir ao filme, é algo que não se confirma como verdadeira, é uma hipótese e como tal age como catalisador de ponto de partida. A personagem, realmente, toma decisões e vai se desligando de uma vida que não estava a satisfazendo. Neste sentido, inclusive em algumas cenas específicas ele pode ser, sim, de grande identificação. Mas não tenho a pretensão de achar que o filme será capaz de ajudar alguém. Eu espero que transmita emoções, quaisquer que forem. Esse já é um objetivo suficiente por enquanto.

Seu primeiro filme teve uma repercussão muito positiva, venceu o prêmio no festival kinoarte… Esse tipo de coisa chegou a ‘pesar’ para você enquanto produzia este segundo? (O lance de manter a qualidade, as expectativas).
Acho que um pouco sim, principalmente pela proximidade das duas produções. Em um ano, rodei dois curtas, algo inimaginável pra mim até 2015 – eu sempre quis, e ainda quero, ser roteirista. A direção veio como um experimento e, de repente, eu já estava indo pra segunda produção. Isso pesa sim, principalmente porque foi um ano de muito trabalho nos dois filmes e de muita alegria também por estar fazendo as coisas com verdade, com seriedade e de uma forma que me deixa orgulhosa ao final dos processos. Gosto de seguir na tranquilidade, ‘lowprofile’ hehe… Mas é assim que consigo levar as coisas adiante. Em termos de expectativas, Onde o Coração Canta me orgulha muito, tenho mesmo um carinho danado por esse filme, pela Thais Vicente, que foi a protagonista, pela equipe toda, mas acredito que Quando o Verde Toca o Azul já se mostre um salto em diversos sentidos, que é o que se espera – adquirindo experiência, conseguimos mais técnica e resultados melhores.

E próximos projetos? Tem já novos roteiros e ideias preparadas para um próximo filme? Você é uma ‘escritora’ que relê muito o que já fez?
Tenho alguns projetos sim, roteiros de gêneros diversos, rs, mas acredito que ficarei um tempo sem dirigir nada – a menos que, de repente, eu me veja filmando o terceiro ano que vem, rs. Isso de dirigir por escolha mesmo. Quero ficar um tempo me dedicando aos roteiros novamente. E, sim, eu amo rever o que fiz. Estou sempre revisitando meus primeiros roteiros e é muito bom descobrir, inclusive, como evoluímos, não na escrita, ou na técnica, mas como seres humanos também.


Ficha Técnica

Elenco: Luciana Caminoto, Eduardo Lopes Touché, Alan Ferreira, Edimara Alves, Alessandra Pajolla e Juliana Monteiro
Roteiro e Direção: Letícia Nascimento
Produção: Bruno Gehring
Direção de Fotografia: Guilherme Gerais
Direção de Arte: Camila Melara Alcantara
Figurino: Thaina Oliveira Gonçalves
Make Up: Evelise Chaiben
Som direto: Artur Ianckievicz
Trilha Sonora: Lucas Dias Baptista
Projeto Gráfico: Glauber Pessusqui
Coloração: Vinícius Leite
Gaffer: Luiz Rossi
Assistentes de Direção: Marcos Savae (Co-preparação de elenco) e João Mussato
Assistentes de Produção: Raquel Sant’Anna e Nabila Haddad
Assistentes de Fotografia: Arthur Ribeiro (Still) e Elder Maxwhite
Assistentes de Arte: Higor Meíja e Natália Tardin
Assistente de Figurino: Layse Moraes

Patrocínio: Programa Municipal de Incentivo à Cultura (Promic) via Prefeitura Municipal de Londrina


SERVIÇO
Quando o Verde Toca o Azul
Estreia – 25/11 às 21h no Cineflix do Shopping Aurora
No 18º Festival Kinoarte de Cinema