Por Bruno Leonel

Traços duros, cores vivas e um apelo bastante rústico no traço. Os desenhos inusitados, às vezes, vêm acompanhados de palavras soltas que em meio à paisagem urbana, são capazes de gerar momentos de reflexão, ou até estranheza em quem às observa. Estas são algumas das características do trabalho desenvolvido pelo coletivo CãoSemPlumas de Londrina que em seus projetos busca propagar um pouco de arte pelas ruas da cidade, algumas vezes, monocromáticas demais.

Desde 2013 o grupo desenvolve trabalhos ligados às artes visuais envolvendo técnicas como, pintura mural e até painéis que colorem um pouco as paisagens urbanas como os cartazes lambe-lambe. Além da pintura, influências do grupo passam também por linguagens como música, o cinema e até a literatura, que inspirou o nome do coletivo. “Sem Plumas é um cachorro que sente falta até do que não teve, um cão tem pelos e não plumas. A gente fazia até ligação disso com a cidade, a coisa do abandono de não reconhecimento do sujeito da cidade, a cidade como um meio hostil….” comenta Anderson Monteiro, bacharel em artes e integrante do grupo, quando cita algumas das referências do coletivo (Veja a seguir).

Da esquerda para a direita; Elias, Rafael Pereira, Anderson e Rafael Garcia "Sem Plumas é um cachorro que sente falta até do que não teve" cita o grupo - Foto: Bruno Leonel/RubroSom
Da esquerda para a direita; Elias, Rafael Pereira, Anderson e Rafael Garcia – O grupo está à frente de um painel de ‘lambe-lambe’ montado por eles mesmos em um dos prédios do Departamento de Artes na UEL  – Foto: Bruno Leonel/RubroSom

Além das afinidades, o quarteto se uniu com a ideia de ‘coletivizar’ um processo que inicialmente é apenas individual (O desenho) tornando assim o processo mais rico, segundo eles mesmos. Afim de entender mais os bastidores criativo do grupo, além da peculiar linguagem usada em seus painéis o RubroSom encontrou com o grupo em uma das salas do departamento de artes da UEL e conversou com, além de Monteiro, pelos bacharéis em arte Elias de Andrade, Rafael Pereira, Rafael Garcia.

Confira:

Como foi o começo do coletivo? Se uniram mais pelas afinidades?
Anderson – Foi em 2013. Teve um dia, bem próximo ao fechamento do tcc, (meu e do Elias), em que encontrei com o Rafael Pereira aqui no departamento e começamos a conversar sobre algumas coisas ligadas ao trabalho, a gente comentou sobre como as coisas andavam meio ‘paradas’, a gente mesmo andava desenhando e criando pouco e a gente começou com essa discussão, o Elias já estava junto nesse dia, eu gostava dos trabalhos que ele fazia… Ai os três começaram a pensar em produzir algo juntos. Tava começando a conhecer o Rafa Garcia de um outro trabalho, o Pereira já era amigo dele, e tudo iniciou com essa junção de ideias…

Rafa Garcia – Na época eu estava afim de colar uns ‘lambes’ também pela cidade, conversei com o Pereira sobre isso e ele me chamou pra fazer essa colagem juntos, e logo mais teve uma reunião do coletivo em que acabaram me chamando e foi quando conheci todo mundo.

Rafa Pereira – Inicialmente a gente nem pensava em um coletivo, nós pensamos mais em juntar uma galera pra continuar trabalhando junto. Desenhar já é um processo muito solitário sabe? Ai quando você faz isso junto, você consegue ver o que o outro está fazendo e já multiplica as ideias… Mas depois, vimos que tínhamos bastante coisa em comum e foi surgindo o coletivo.

Arte feita no diretório central dos estudantes (DCE) - Foto: Facebook do CãoSemPlumas.
Arte ‘que acompanhava a arquitetura do espaço’ feita no diretório central dos estudantes (DCE) – Foto: Facebook do CãoSemPlumas.

Neste primeiro encontro, como rolou a discussão? Alguma coisa foi definida por ali?
Elias – Na verdade, com dessa ideia do fim da faculdade, de todos terem passado pelo curso de artes  e estarem acostumados a trabalhar juntos, acabamos pensamos em fazer algo pra manter isso… Houve meio que uma ‘Nostalgia antes mesmo de sair da UEL’ com o fim do curso, daí começaram as reuniões… (Segundo os próprios a primeira reunião foi em um bar chamado Madalena, no centro da cidade).

Anderson – Isso do coletivo tem a ver também com o clima do departamento (UEL) há alguns anos atrás, era comum no departamento juntar alunos que já haviam se formado, com pessoas que estavam no 3º ano, no 2º ano… Isso fora de horário, bem informal e era um grupo de pessoas que tinha trabalhos muito marcantes, o pessoal se dedicava por conta. Com a mudança do departamento (Em 2012 o mesmo mudou para um prédio vertical) , o pessoal parecia que não interagiam. Com o grupo nós tentamos meio que retomar um pouco para a época desses climas, com mais integração…

Cores vivas e texturas 'brutas' são algumas das características do trabalho do coletivo - Foto: Bruno Leonel/RubroSom
Cores vivas e texturas ‘brutas’ são algumas das características do trabalho do coletivo – Foto: Bruno Leonel/RubroSom

E o nome do coletivo como veio?
Anderson – A gente tinha lido João Cabral de Melo Neto, um poema dele que se chama ‘Cão Sem Plumas’ no qual ele fala do Nordeste, do Rio Capibaribe, é um poema bem árido, ele é bonito mas alcança a beleza por um tipo de dor, é um tipo de beleza dura… Acho que percebia isso um pouco no que eu faço, nos trabalhos do Elias, do Rafael também, acabou sendo uma expressão que fez muito sentido com o trabalho dos três. Era bastante por causa disso também. Além dessa coisa do ‘Sem Plumas’, é um cachorro que sente falta até do que não teve, um cão tem pelos e não plumas. A gente fazia até ligação disso com a cidade, a coisa do abandono de não reconhecimento do sujeito da cidade, a cidade como um meio hostil…. Era um pouco por causa da aura do poema.

Elias – Pensamos nisso também por causa da cidade, uma coisa que unia a gente, além da arte que tinha relação. Essa coisa do nosso desenho acabava sendo mais ‘cru’, talvez até mais ‘pobre’ (Termo que tem conotação negativa) em alguns aspectos, mas é rico em outro… A palavra é pejorativa, mas por que algo rico não pode ser pejorativo também né? A gente acaba criando esses paralelos ai que, as vezes, nem existam. O Rafael entrou nessas também pela afinidade com os ‘lambes’ e tem essa coisa dos desenhos do ‘Cachorro’ que atravessa a cidade, aí, talvez a gente se coloque um pouco nisso… Um cão que está atravessando a cidade, sai e volta para ela.

Rafa Garcia – A poesia fala também algo como ‘Não existe rua sem cachorro’, o cão é meio que um personagem da própria rua, e também fala da precariedade, do rio por exemplo, de uma ausência de água no próprio rio. Nosso trabalho fala muito da precariedade, a gente usa muitos materiais baratos e faz essa relação com o cachorro como o ser urbano, que dialoga muito com o que a gente faz. Nosso desenho tem um quê de precário.

Detalhe do painel montado no Departamento de Artes da UEL em Março/2016 (Ainda incompleto) - Foto: Bruno LeonelRubroSom
Detalhe do painel montado no Departamento de Artes da UEL em Março/2016 (Ainda incompleto) – Foto: Bruno Leonel/RubroSom

Vocês falaram um pouco do coletivo, mas, individualmente cada um carrega referências muito diferentes?

Anderson – No meu caso faço mais desenhos, com linha, óleo em barra, fuligem e até pó de chaminé, misturo esses materiais para o resultado final. Pintura também, no coletivo me encontro mais através da pintura moral.

Rafa Pereira – Eu trabalhei bastante com lambe e pintura mural, não faço muita distinção acho elas muito próximas. Tenho usado nos meus trabalhos muitas palavras também, não são exatamente textos, mas como legendas. Não tanto como literatura, mas, as vezes a palavra também é um desenho sabe?

Rafa Garcia – Eu faço muitos trabalhos em lambe também, desenho e pintura mural. Gosto bastante de lápis aquarelado, pigmento, nanquim…

Elias – Dos quatro eu sou mais ligado á gravura, metal, xilogravura…. Mas o que une todos é mais o desenho mesmo. A gente fala muito sobre o limite entre desenho e pintura, essa dualidade as vezes nem existe, mas é o que acaba juntando todo mundo como coletivo, de repente, como um trabalho pode virar instalação também. Acho que é o desenho que nós mais investigamos como coletivo, nem é específico da pintura mural, do lambe, mas é o desenho. A gente até já teve umas fases de ideias diferentes, na fase mais recente é o ‘lambe’ que tem pego mais.

Painéis de 'Lambe-Lambe' expostos durante a festa SɅNɅTØRIUM II no RƩDUTO DOS DƩLÍRIOS em Londrina - Foto: Lírica Aragão
Painéis de ‘Lambe-Lambe’ expostos durante a festa SɅNɅTØRIUM II no RƩDUTO DOS DƩLÍRIOS em Londrina – Foto: Lírica Aragão

Vocês falaram um pouco, sobre o surgimento do coletivo ligado à cidade como ‘ambiente infértil’ em relação à arte, daria pra pensar sobre uma certa militância no trabalho que vocês fazem?
Anderson – Acho que sim, surgiu meio que assim também né? Quatro caras que se juntam para desenhar e, a princípio, como não dá retorno financeiro então é uma forma de ‘nadar contra a maré’, são quatro rotinas que não oferecem espaço para isso, no meio de semana todo mundo precisa se reunir para fazer um trabalho em conjunto, ainda assim, a gente tenta e consegue fazer isso.

Rafa Pereira – A gente conversa bastante sobre política, mas, não temos nenhuma bandeira, ou, cada um tem uma, ainda que não fique evidente (risos). Acho que tudo o que a gente faz é político, desde a coisa mais inocente até algum trabalho mais explícito, a gente pensa muito na arte como força política, como ferramenta para que as pessoas parem e observem algo diferente, o mundo está muito corrido né? É um jeito de falar para as pessoas ‘desacelerem!’.

Rafa Garcia – Tem a relação com o entorno da obra também. Quando você vai fazer algum trabalho, você conversar com as pessoas próximas de onde a obra vai ser feita. Recentemente teve um lava-rápido, onde fomos fazer um trabalho e conversamos com o dono, isso tudo é um pouco político. Geralmente o pessoal entende numa boa, teve uma vez que colamos uns lambes em um muro, mas o dono não gostou muito não, a gente também não tinha pedido permissão… Mas muita gente gosta também, a pintura mural mesmo muita gente vem perguntar sobre o trabalho, sobre quanto custa para fazer, e essas coisas…

Anderson – A gente pensa muito onde irá colocar o trabalho, onde um desenho será feito, como as pessoas verão isso. Teve um trabalho legal que fizemos uma vez no DCE que foi feito seguindo a arquitetura do local, as posições foram pensadas conforme a estrutura do espaço.

Elias – Além do trabalho nas ruas e espaços fazemos algumas oficinas também. A gente acredita muito nessa educação ‘informal’, que contribui de alguma forma.

Anderson – No trabalho do DCE nós abrimos para algumas pessoas participarem e colaborarem com a gente, no formato de oficina, aproveitando que iríamos fazer lá no espaço do DCE.

Pereira – Temas que a gente conversa bastante sobre o afeto e troca. Dos três anos que o coletivo existe a gente ganhou pouco dinheiro com os trabalhos, mas, isso não é algo que atrapalhe tanto. A gente fica feliz em ver pessoas interessadas no nosso trabalho, em pessoas chamarem a gente para colaborar, sempre que somos chamamos vemos como tem valido a pena.

Pintura feita no encontro das Avenidas Dez de Dezembro e Inglaterra em Londrina - Foto: Facebook do Coletivo.
Pintura feita no encontro das Avenidas Dez de Dezembro e Inglaterra em Londrina – Foto: Facebook do Coletivo.

E para o futuro do coletivo? Mais projetos ou ações a vista?
Pereira – Acho que a ideia é continuar os trabalhos, a gente escreveu pouco sobre o que fazemos ainda, não temos registros escritos. Não mandamos muitos trabalhos para editais ainda, mandamos duas vezes para o PROMIC e não conseguimos… É um pouco burocrático o processo. Manter isso já é um proejto… As coisas são tão difíceis de fazer, o tempo acaba sendo tão complicado, a rotina tem exigido muito de todo mundo, é importante não desanimar.

Anderson – A gente quer compartilhar algumas leituras que todos temos também, conversar entre a gente sobre como isso pode melhorar a produção, divulgar referências e essas questões.


Mais informações

E-mail: Coletivocaosemplumas@gmail.com
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