Por Bruno Leonel

“Eu acho que fazer MPB é bem sério, em relação à composição. Para você mostrar algo para o mundo você tem que dar o melhor de si, é isso que vai ficar da sua vida né? É um registro que tem essa preocupação que com a intenção e com a sonoridade”, comenta o musico e compositor Rogério Luiz. Nascido em Cornélio Procópio, e morando em Londrina há 10 anos, Luiz finalizou recentemente a gravação de seu primeiro trabalho ‘Lembranças’. O registro conta com oito faixas autorais (Entre elas duas versões diferentes para a faixa título) que passam por estilos como a MPB, e até a bossa, mas que dialogam também com outros gêneros.

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“Sempre me interessei por essa coisa da escrita, do violão e a parte instrumental, gostar de falar sem utilizar palavras né?” comenta Rogério – Foto: Bruno Leonel/RubroSom

Rogério que é formado em Letras, contou em entrevista que o gosto por diferentes sonoridades e linguagens vem desde muito cedo quando, morando em cidade pequena, era condicionado a ouvir as estações de rádio da época, além da coleção de vinil de sua família.”Ouvia Ray Charles, Frank Sinatra, Robert Page, Discos da Motown, Toto, música brasileira… Hoje em dia você não ouve isso em rádios abertas, você precisa ir pra algo mais segmentado” comenta o compositor.

A literatura, ainda que de forma mais sutil, se faz presente também no seu trabalho autoral, Rogério conta que perto da gravação leu o livro Grande Sertão Veredas (Guimarães Rosa) cujos temas refletiram na parte da criação.

O RubroSom conversou com Rogério sobre o processo de composição do disco, a relação pessoal do músico com a parte de criação e o processo de gravação de ‘Lembranças’, confira:

Você mora já há dez anos em Londrina, seu trabalho com a música começou um pouco antes disso?
Música vem desde muito cedo, minha primeira lembrança com a música é já dos cinco anos de idade ouvindo vinil, tinha discos como o Abismos de Rosa (Dilermando Reis)… No rádio tocava muita jovem guarda, e também Frank Sinatra, meu pai ouvia muita coisa também, escutava muita coisa dele. Eu até arriscava imitar algumas coisas, eu era canhoto e usava o instrumento invertido, nisso acabei ficando meio ambidestro pra tocar também. Na minha cidade (Cornélio Procópio) havia um programa de rádio que era gravado ao vivo em um auditório lá da cidade e eu ia lá tocar as vezes. Desde muito cedo eu já frequentava esses meios.

E a coisa da composição, começou em que fase?
Essa parte de compor, de criar mesmo, acho que foi só depois de mais velho, lá pelos 20 e poucos… Compor não é um processo fácil. Eu falo compor considerando uma certa estrutura que eu tenho como referência. Num nível coerente no sentido de fazer junções, pensar na palavra, nas funções harmônicas e nos encaixes de som. É como se fosse um presente que você irá dar ao mundo, você não dá ‘qualquer coisa’ como um presente né? Você só dá aquilo que você acha bom. O compositor João Bosco costumava falar que ‘A música nunca está pronta’, ela sempre vai mudando, ela é um retrato de um momento que você vai atualizando.

Essas músicas do ‘Lembranças’ mesmo começaram há dez anos atrás. Esse processo todo, vem de coisas escritas há muito tempo. Hoje eu não tenho muito aquela ansiedade que eu tive na adolescência sabe? Eu deixo a música fluir, evoluir normalmente…. Deixo ela num descompromisso, mas eu, não vou me precipitar. A música está lá e em um momento as coisas vão acontecendo.

Sempre me interessei por essa coisa da escrita, do violão e a parte instrumental, gostar de falar sem utilizar palavras né? Mesmo que em notas você tenha uma palavra as vezes, um trecho instrumental é como se você falasse as vezes…. Sempre gostei muito de música instrumental também.

Para você a como é esse processo de criação? Começou como uma necessidade?
Composição pra mim é uma necessidade de sobrevivência. Esse trabalho mesmo não é leve, as temáticas falam de temas psicológicas, tem algumas críticas sociais, solidão, conflitos. Eu vejo isso como necessidade de arte como forma de expressão, você colocar aquilo que você sente pra fora e deixar para o mundo, é mais por sobrevivência mesmo. Eu acho que a música nunca mais vai me abandonar, porque, eu to sempre em algum momento com ela, to sempre envolvido.

Quando você escreve Rogério, você pensa em questões mais pessoais, ou, pensa em coisas que possam ter sentido pra mais gente?
Tem músicas que são totalmente pessoais sim… A música ‘Desabafo’ fala muito sobre essa coisa de gritar para o mundo, mas, como uma voz de todo mundo que passa por certas situações. A faixa ‘Ela’ tem um eu-lírico feminino, mas que vai para outro caminho, tem algumas coisas da minha vida que aconteceram por trás da história ali.
O disco foi gravado no Estúdio plug (Antigo play, rec pause) em cerca de uma semana. Teve participação do Wendel Antunes, (Maracutaia do Samba, Matitaperê) ele fez a música ‘Lembranças’ (Versão instrumental).

Toca vários instrumentos, para a criação isso ajuda?
Ajuda sim. A concepção do álbum era ser feito com baixo., bateria, uso de sopros, piano e vários elementos… Teve músicas que eu cheguei a fazer o arranjo (Como a ‘Para no Ar’) onde eu fiz o baixo, mas ai, na hora acabamos mudando. Quem faria o baixo inicialmente era um músico convidado (Ney Conceição). Quando você convida alguém, a pessoa colabora fazendo da melhor forma possível, ela faz da forma que ela acha melhor… Tínhamos pensado, mas ai, no fim resolvemos enxugar as ideias e fazer outro arranjo. Tem a coisa da introspecção né? Como o disco chama Lembranças, eu acabei tocando e de outra forma, de um jeito que dialogue mais com o que eu vivi – O disco foi gravado no final de 2015, em cerca de uma semana.

Agora com o disco pronto, você já colocou algumas das músicas na sua página pessoal do facebook, vai ter algum evento de lançamento?
Tenho uma ideia de fazer sim, vai acontecer na chácara da Kinoarte, é um espaço legal que tem essa abertura para projetos culturais, só não tenho uma data definida ainda. Por enquanto as músicas foram disponibilizadas na internet. Não foi feita ainda uma capa, ou uma edição física, mas, tenho projetos para fazer isso ainda. Sem pressa, como não tenho mais essa ansiedade, as músicas estão prontas já, irei fazendo conforme for possível.