Por Bruno Leonel

Traços escuros de nanquim, quase jogados na tela, fazem a separação de cores bastante vivas. As pinturas misturam cores diversas ao lado de linhas recortadas e uma peculiar forma de preenchimento geométrico nas formas. As telas não vem sozinhas, textos poéticos acompanham também algumas das peças lado a lado no local onde estão expostas. Os mais desavisados podem até ver semelhanças com obras como a do artista brasileiro Romero Britto, mas basta um olhar mais aproximado para notar como a intenção aqui é bem diferenciada. Assim é o trabalho da artista mineira Viviane Araújo de Lima (Que usa o pseudônimo Lee Kauê), que assina os trabalhos da exposição “Drupismo e Suas Fases (Pintura.Desenho.Poesia.Poema)” montada no Sesc Cadeião, em Londrina, desde a semana passada.

A artista plástica e poetisa mineira Lee Kauê durante conversa em Londrina (Obras de cores vivas compõem a exposição) - Foto: Bruno Leonel/RubroSom
A artista plástica e poetisa mineira Lee Kauê durante conversa em Londrina (Obras de cores vivas compõem a exposição) – Foto: Bruno Leonel/RubroSom

A mostra apresenta 30 quadros e poemas produzidos pela artista por meio de uma técnica própria denominada Drupismo. O método é desenvolvido já há cerca de 13 anos; “Essa técnica nasce com superfície plana, onde é jogada a tinta nanquim que escorre pela tela e forma alguns desenhos mais escuros…. Depois eu preencho esses vãos, esses espaços que são delimitados após o escorrimento e marcação da tinta nanquim. O que eu falo que é drupismo é isso, é nascer a partir dessa espontaneidade, e depois, aliar isso ao poema” comenta a artista. Segundo a própria, há algumas semelhanças entre o seu trabalho e também o do artista americano Jackson Pollock, conhecido por ‘atirar’ as tintas na tela, sem usar pincel para completar seus trabalhos. “Mas eu uso pincel, é diferente (risos), eu também ‘brinco’ com as tintas após jogá-las na tela. Já vi também uma artista francesa que usa um processo parecido”, comenta a artista.

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Obras com cores variadas pertencem à serie ‘Sinapses com quebra-molas’ que também estão na exposição – Foto: Bruno Leonel/RubroSom

Cada uma das obras vem acompanhada também de um texto poético. Os trabalhos são escritos de forma individual também por Viviane Araújo, ou ainda, em parceria com a poetisa mineira Dicássia, que acompanhou Lee Kauê desde que ela começou a se enveredar no ramo das artes. Com dezenas de exposições feitas, Lee já teve seus poemas publicados em dois livros: “Retratos de um Pensar” (2000), e “Jujubas, Whisky, Sexo e Rusgas” (2010). Mostrando um ecletismo em relação à apreciação de outras artes, Lee comentou como seu trabalho tem influência de outras formas de expressão como a música. Em especial MPB e alguns compositores mineiros.

Durante a passagem da pintora por Londrina (No lançamento da mostra no Sesc) o RubroSom conversou com a autora para aprender um pouco mais de seu processo criativo: Confira

Seu trabalho dialoga com outras artes, literatura, música…. Como é esse processo?
Na realidade assim, autoras como a Adélia Prato é uma das poetas a qual eu admiro. O processo de criação dela dos poemas, talvez porque a gente se identifique em relação à questão do cotidiano. Mas o meu e o dela são muito diferentes…. Eu, na minha formação e no trabalho sempre busquei ideias e elementos diferentes, o que é um ritmo um pouco diferente da vida monótona, por exemplo, que ela retrata em algumas obras.

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Trabalho da artista é dividido em fases. A fase ‘Vermelha’ tem o nome de ‘Identidade’ – Foto: Bruno Leonel/RubroSom

A partir do momento em que você começou a pintar…. Essas referências já estavam com você? Ou é algo que foi somando durante o processo?
Não…. Isso veio depois! Uma coisa que foi constante desde o começo foi a música, especialmente MPB e também a música clássica. Ouço muita música alta. Alguns cantores que admiro: Flávio Venturini, Vinícius de Morais, Milton Nascimento, Leila Pinheiro…. Costumo ouvir o tempo todo.

A poetisa Dicássia (Do lado esquerdo) produz textos baseados em impressões do trabalho de Lee Kauê (Do lado direito)
A poetisa Dicássia (Do lado esquerdo) produz textos baseados em impressões do trabalho de Lee Kauê (Do lado direito)

Há quanto tempo você já faz o trabalho com pintura?
O drupismo – Essa técnica de fazer a tinta escorrer, e depois, preencher com outros desenhos tem já 13 anos, mas eu já pinto há 20 anos mais ou menos. Mas, nesses primeiros anos eu estava buscando uma identidade na minha pintura, um pouco depois disso comecei a criar essa técnica mais pessoal. (Lee conta que é farmacêutica de profissão, e não possui muito estudo teórico sobre a pintura).

Na sua exposição o trabalho é um pouco dividido em diferentes fases (Fase do Vermelho, fase do amarelo), são pinturas feitas em um período de quanto tempo?
As fases são compostas por obras feitas durante um período de 14 anos. A fase ‘Preto e branco’ se chama ‘Traços, riscos e rabiscos’ e todas tem um tema e um poema relacionado… Depois disso veio a fase ‘vermelha’ que se chama identidade, ai a amarela (Dores de viver) a verde (Da peroba ao bambu) e a policromática (Sinapses com quebra-molas). Essa última fase teve início há cerca de 3 ou 4 anos.

A artista desenvolve sua técnica já há 13 anos - Foto: Bruno Leonel/RubroSom
A artista desenvolve sua técnica já há 13 anos – Foto: Bruno Leonel/RubroSom

Como foi o início do trabalho com a escritora convidada? A Di Cássia?
Ela foi minha professora de literatura, na época do colégio, ai depois, quando fiz esses projetos culturais eu a chamei pra me dar um apoio, uma ideia mais técnica (Eu não tinha pretensões de competir com gente que fez academia, que era mais estudado), mas assim, eu queria ter um respaldo assim. Fizemos muitos poemas juntos, até mesmo em mesa de boteco, nos bares de minas…. Em BH e outras cidades. Eu senti muita segurança nela, primeira por causa das influências semelhantes e também porque eu gosto da cadência que ela tem na forma de escrita. É um processo rápido e direto até. Eu termino a coleção (Das pinturas) depois eu já mando fotos para ela. Ela escreve baseado nas impressões dela da obra.


Serviço

Exposição “Drupismo e Suas Fases”
Evento abriu na semana passada e segue até 3 de julho
Onde: Sesc Cadeião Cultural (R. Sergipe, 52)
Entrada gratuita