Por Bruno Leonel

Musical, denso e com uma profundidade pessoal impressionante; Essas são algumas características do texto da peça de abertura do Festival Internacional de Londrina intitulada “Processo de Conscerto do Desejo” que traz o ator Matheus Nachtergaele em um de seus momentos mais íntimos em cena, desde que estreou nos palcos, nos anos 80. Neste espetáculo, que estreou em novembro do ano passado, o ator recita textos de sua mãe, a poetisa Maria Cecília Nachtergaele, que morreu aos 22 anos.

Nachtergaele - A peça é celebração das tristezas, alegrias e possibilidades

Matheus tinha três meses de vida quando ela se suicidou. A memória que guarda da mãe são as histórias contadas em família e a personagem que emerge nos poemas deixados por ela. São estes textos, acrescidos de anotações, que Matheus Nachtergaele guardou por toda a vida e agora interpreta, intercalando comentários, reflexões e memória. Ao lado do violonista Luã Belik e do violinista Henrique Rohrmann, o ator realiza um “concerto” musical que percorre as canções que faziam a trilha sonora de sua infância e sonorizam os poemas lidos em cena. Ao mesmo tempo, um “conserto” em que faz reparos à memória em busca de conhecer a própria mãe.

Matheus Nachtergaele tem uma trajetória que impressiona não apenas pelas generosas referências estéticas ou a técnica refinada, mas sobretudo pela vasta galerias de tipos brasileiros aos quais deu corpo e voz – no teatro, na televisão e no cinema como ator, autor e também diretor. Após uma entrevista coletiva, realizada no Edifício Júlio Fuganti em Londrina, o Rubrosom conversou com o ator e escritor, no qual, ele falou mais sobre o trabalho com este espetáculo. Leia a seguir


O texto dessa peça tem um aspecto pessoal muito forte (É feito a partir de textos da mãe do ator, que se suicidou quando o mesmo tinha apenas 3 meses de vida) há quanto tempo ele começou a ser escrito? É antiga já essa ideia de fazer algo a partir desses textos poéticos que ela deixou?
É uma reunião da pequena obra que a Maria Cecília (Mãe do ator) deixou… São 30 poemas que eu recebi quando tinha 16 anos de idade. E guardo, nestes 30 anos pensando sim, desde sempre, em como mostrar para o público. Porque os poemas são bonitos, tem qualidade estética, estilística, são interessantes. Eu pensava em algum momento em editar um livro com os poemas e, com o passar dos anos, amadureci a ideia, pensando em convidar uma amiga para fazer a Maria Cecília no teatro…. Ela chegou a topar, mas, devido a outros projetos, outras rotinas fui deixando. E quando retomei essa ideia, veio de uma vez, decidi que era o filho mesmo que deveria dizer os poemas da mãe. Fiz o espetáculo apenas com o essencial apenas, que o teatro precisa; Palavra, corpo, luz e música ao vivo. Acho que com o advento do cinema, da televisão e as tecnologias, sobrou pouca coisa para o teatro, mas, o que sobrou é tão maravilhoso e é a cerimônia. Não me convence mais nenhum tipo de teatro de ‘gabinete’ onde você entra num lugar que reproduz uma sala de 1800, o cinema faz melhor isso sabe? Não cola …. Para o teatro sobrou a celebração, o ritual, eu ritualizo meu luto e minha alegria em ter perdido tão cedo minha mãe, mas, também ser filho de uma mulher tão talentosa…

É como a vida, uma celebração das tristezas, alegrias e possibilidades. Os espetáculos são bonitos, vivos, a plateia se comove, existe uma catarse. Temos rodado o país e, cada vez que a peça vai começar eu percebo a loucura que é fazer isso, o grau de exposição que tem nessa celebração que eu faço, mas, me alegro por estar fazendo isso junto com ‘a minha mãe’ pela primeira vez e segundo por poder fazer teatro com pessoas que eu amo, junto de talentos que eu adoro, com um material profundamente íntimo. Acho que nunca estive tão exposto. Demorei pra fazer porque achava que poderia ficar triste e, na verdade, o espetáculo me alegra de uma maneira surpreendente. Fico feliz das pessoas se emocionarem com os poemas da mamãe – Editamos em um livro também (Através da Editora Polvilho) e sempre vendemos o livro ao final de espetáculos. Foi uma tiragem pequena, reproduz a ideia de uma caixinha de jóias, como algo que você abre e encontra 30 jóias dentro. E um pouco pensando também na ideia da ‘pérola’, a peça tem muito isso. A pérola é um cisco que machuca a ostra e, no entorno daquele machucado, a ostra forma a pérola… Depois nas mãos do homem vira jóia. A peça é isso, a dor lapidada e transformada em beleza.

Qual o aspecto dos textos da sua mãe que talvez mais prevalece?
Ao longo do tempo vários aspectos se tornaram mais ou menos importantes de acordo com o meu entendimento. Se é possível sintetizar algum aspecto, me parece que a Maria Cecília pedia mais ternura no mundo. É o que me parece, se é que é possível sintetizar algo desse tipo de obra. Esse pedido absoluto por ternura tá valendo ainda…
Além dos textos da sua mãe, há outras referências literárias na obra final?
Eu termino com um poema do Drummond (Eros e Psique) além de muitas músicas, canções que ela gostava. Eu de uma geração que foi criada em São Paulo para o teatro/dança, no final dos anos 80 nossa formação era muito corporal, os diretores tinham uma mão muito pesada esteticamente e a palavra era muito pouco elaborada. No ‘Teatro Vertigem’ que começamos a mudar isso.
A peça estreou em novembro, circularam bastante pelo país… Com todo esse resgate constante de lembranças, em nenhum momento chegou a te abalar de forma negativa?
Não, eu demorei pra fazer por isso… Agora eu lido melhor com isso. Acho que se eu fosse mais jovem talvez eu sofresse, mas agora o espetáculo me faz feliz.
Você é uma pessoa saudosista (falando de vários aspectos)?
Eu sou! Sou nostálgico, e sou do tipo que a música do passado era melhor do que a de agora, acho que os artistas antigos eram melhores, o cinema do passado era melhor (risos)… Tem um lado nostálgico mas que, eu acho bonito. É um apego pela obra da humanidade, anterior ao meu tempo, já fui mais melancólico, a gente vai aprendendo a viver!
Tem uma frase de um escritor que fala que ‘O desejo nunca é modesto’… Sua peça fala do ‘Processo do conscerto do desejo’… desejo pelo que?
O desejo é o pressuposto primeiro da vida. Todo ser vivente deseja, talvez o adjetivo mais comum a todo o ser vivente é desejar, é ser desejoso. De amar, de se reproduzir, de se alimentar, de matar… E até morrer. Eu coloco ‘conscerto’ porque é o concerto de música/poemas e o conserto de consertar o que se deseja. Talvez eu não queira deixar a Maria Cecília neste lugar de suicidas e, quero também, consertar esse desejo, quer dizer… A partir desse espetáculo quero descobrir o que mais eu quero. De certa forma é o cume de algo para mim, meu material mais íntimo é mostrado em um teatro, onde eu vivo… O que fazer depois? (risos)


Ficha Técnica

Textos: Maria Cecília Nachtergaele|Direção e interpretação: Matheus Nachtergaele| Violão: Luã Belik | Violino: Henrique Rohrmann | Direção de Produção: Miriam Juvino| Produção Executiva: Rafael Faustini | Corpo: Natasha Mesquita | Voz: Célio Rentroya | Iluminação: Orlando Schaider | Design Som: Andrea Zeni | Artes visuais: Cláudio Portugal e Karina Abicalil | Divulgação: Silvana Cardoso (Passarim Comunicação) | Contrarregra: Cedelir Martinusso | Assessoria: A Gente Se Fala Produções | Realização: Pássaro da Noite Produções.


SERVIÇO

Abertura do Festival Internacional de Londrina 2016
Peça:  ‘O Processo do Conscerto do Desejo” 
Com Matheus Nachtergaele, Luã Belik e Henrique Rohrmann
Quando:
Hoje (26) – Esgotado – e sábado (27) às 20h30
Onde:
Teatro Marista (R. Cristiano Machado, 240 – Campo Belo)
Ingressos: R$ 30 (inteira) e R$ 15 (meia)

PONTO DE VENDAS

Royal Plaza Shopping (Rua Mato Grosso, 310)
E pelo site: www.diskingressos.com.br