Por Bruno Leonel

Nesta sexta-feira (10) o projeto ‘A Mulher das palavras’ se apresenta no Centro Cultural Sesi/AML (Praça Primeiro de Maio, 130) em Londrina. A apresentação é parte do projeto Vozes da Cidade, realizado mensalmente pelo espaço, e que nesta semana apresenta o projeto encabeçado pela escritora e jornalista Karen Debértolis. Juntamente com os músicos Rafael Fuca (violão) e Luciano Assumpção (guitarra) a apresentação consiste em uma interpretação musical de versos e sons, que busca levar a poesia para um novo nível de intensidade e interação. Unindo referências que vão desde a música brasileira até motivos de blues e outros estilos o projeto faz um amálgama sonoro performático repleto de nuances que oscila entre a declamação e a vertente denominada Spoken word.

O grupo em ação durante apresentação em 2015 - Foto: Renata Cabrera.
O grupo em ação durante apresentação em 2015 – Foto: Renata Cabrera.

O projeto une formas diferentes de arte, muitas vezes, levando ao público impressões a mais do que seria possível absorvendo separadamente apenas o texto ou apenas a melodia. “A resposta do público é sempre imediata, principalmente, porque, às vezes, muitos não têm a relação com a poesia, relação no livro me refiro. Então, se surpreendem….”, contou a autora durante entrevista. Aproveitando a ocasião da apresentação, o RubroSom conversou com Debértolis, que falou um pouco mais a fundo sobre o processo criativo e sobre a forma de diálogo entre as duas artes que buscam desenvolver. Confira:


Você é uma pessoa que transita por diferentes tipos de arte, tanto a música como a literatura… Na sua trajetória qual das duas bateu primeiro como influência no seu trabalho?
A literatura com certeza. Mas, o meu universo familiar era muito musical também, então, desde pequena ouvi muita música de todo o tipo, as músicas que meus pais cantarolavam, as músicas que as minhas irmãs ouviam no rádio e tocavam no violão. A leitura sempre foi algo muito estimulado e vivenciado na minha casa.

Sobre o projeto a mulher das palavras, como (E quando) começou? Foi algo planejado ou surgiu de uma necessidade de musicalizar textos que já estavam prontos?
Foi um amadurecimento natural do trabalho que sempre desenvolvi dialogando a partir da literatura com outras linguagens, especialmente com as artes plásticas e a fotografia. Conhecia o trabalho da Laurie Anderson, multiartista americana e expoente da spoken words, isso foi um dos gatilhos para começar a observar mais a sonoridade de alguns poemas que escrevia e, a partir de 2007, trabalhando em conjunto com o compositor e cantor paranaense Bruno Morais (Que mora em São Paulo) o projeto tomou forma. Há também outras referências e influências que são os poetas beatniks e as experiências sonoras e visuais dos irmãos Campos.

"A leitura do poema no livro é íntima, depende de cada leitor. No caso d 'A Mulher das Palavras eu dou um sentido à leitura que também vai ser ressignificada pelo espectador", contou Karen Debértolis sobre o projeto 'A Mulher das Palavras' - Foto: Renata Cabrera.
“A leitura do poema no livro é íntima, depende de cada leitor. No caso d ‘A Mulher das Palavras eu dou um sentido à leitura que também vai ser ressignificada pelo espectador”, contou Karen Debértolis sobre o projeto ‘A Mulher das Palavras’ – Foto: Renata Cabrera.

Nesse projeto o que vem primeiro melodia ou os versos? Você acha que daria pra chamar o trabalho de vocês de ‘poesia sonora’?
O trabalho parte sempre do poema e depois se produz a melodia pensando sempre no sentido de diálogo com a sonoridade do poema. A composição é sempre feita de forma coletiva – Eu e o músico, na maior parte das vezes o Fuca, depois o arranjo é aprimorado nos ensaios com a troca de ideias com os outros músicos que participam do projeto. Mas eu também faço proposições melódicas. Eu classifico o trabalho dentro da vertente da spoken word.

Você tem já cinco livros publicados, já fez gravações de poesia (em 2009)… Com o tempo você diria que se torna menos ‘difícil’ o processo de criar/escrever algo satisfatório?
A trajetória traz um amadurecimento e, ao mesmo, tempo uma exigência maior em relação à escrita. A gente se torna mais crítico, mas isso é muito positivo. O tempo e a experiência também faz com que nos tornemos mais capazes de observar e avaliar o que está bom e o que não está em termos do texto, quando está “pronto” ou não. A qualidade na escrita só se alcança escrevendo, acertando e errando, editando, rasgando e reescrevendo. É um exercício contínuo. É aplicação árdua ao trabalho. Pesquisa, estudo, leitura.

O projeto de vocês tem muita influência do blues que é notável por ser um gênero que lida com temáticas da tristeza, perda, melancolia… Desde sempre teve mais afinidade em trabalhar com essas temáticas?
Acho que em termos de gênero musical tem influências diversas. Muito mais do jazz e do rock que do blues. Há até um samba na playlist. Sempre trabalhamos também com a ideia da música ser contraponto do poema, pode-se falar em momentos difíceis, mas a música é dançante, com groove. Afinal, é uma poesia pra dançar.

Eu vi uma entrevista sua (No Graviola Groove) onde você fala sobre o processo de criação ter a ver com o ambiente de ‘bar’ (Ideias que surgem da observação de pessoas tristes, etc), é um tipo de lugar que te inspira muito ainda?
Não exatamente. Todo contexto pode ser um ponto de partida, a rua, o cotidiano do trabalho, o silêncio, o bar também. Mas, no caso do Graviola Groove nós gravamos Desmemória, que, no caso, era um poema que tinha uma relação com o contexto da boêmia, de uma dor de cotovelo, de uma certa forma, que se “cura” também no bar.

Desmemória / A Mulher das Palavras do Graviola Groove (Gravado em 2015 no Varanda, em Londrina).

Como você diria que a música agrega ao seu trabalho na literatura? Nos shows por exemplo você sente que o público explora sensações além do que teria caso fosse apenas o texto?
Os poemas escolhidos, para serem trabalhados dentro do projeto, já trazem uma musicalidade inerente, são textos em que a sonoridade das palavras, o ritmo da escrita poética já evidencia uma “música”. É uma vertente dentro do meu trabalho. A resposta do público é sempre imediata, principalmente, porque, às vezes, muitos não têm a relação com a poesia, relação no livro me refiro. Então, se surpreendem. Mas acho que em termos de recepção são duas instâncias diferentes –  A da poesia falada e da poesia escrita. A leitura do poema no livro é íntima, depende de cada leitor. No caso d ‘A Mulher das Palavras eu dou um sentido à leitura que também vai ser ressignificada pelo espectador. Muita gente dança em alguns shows, isso eu acho o máximo. Porque quebra uma relação tradicional, de reverência, de intocabilidade da poesia. Mas não deixo de trabalhar também com o poema na sua relação com o papel, a sua visualidade na página do livro. Estou com um livro de poemas inéditos na gaveta, por exemplo.

Para esse show do dia 10, o que o público pode esperar? O repertório de vocês é mais definido antes ou há muito espaço para improvisos?
O show tem um roteiro, tem uma concepção estética. A improvisação fica por conta da carga cênica da leitura performática que faço dos poemas e dos espaços que criamos para a improvisação instrumental dos músicos. E também da performance deles como instrumentistas, mesmo que tenhamos melodias e arranjos pré-definidos.


Serviço
Vozes da Cidade com Karen Debértolis (A Mulher das Palavras)
Quando:
Sexta-feira (10) ás 20h
Onde: 
Centro Cultural Sesi/AML – (Praça Primeiro de Maio, 130)
Preço: Entrada gratuita (Ingressos devem ser retirados uma hora antes)